Título: Para cada interlocutor, uma versão
Autor: Rosa, Vera
Fonte: O Estado de São Paulo, 25/02/2007, Nacional, p. A6

É sempre assim: toda vez que anuncia a intenção de promover reformas ministeriais, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva deixa aliados à beira de um ataque de nervos. Mudanças não são o forte de Lula, muito menos com a velocidade desejada pelos partidos. Aborrecido com as cobranças, o presidente decidiu agora despistar os curiosos com nova estratégia sobre a montagem da equipe e, em reuniões a portas fechadas, espalha nomes diferentes para o mesmo ministério.

O estilo Lula de confundir aliados tem duplo objetivo: tanto serve para testar ¿cotações¿ no mercado político como para verificar quem são os ¿fofoqueiros¿ de plantão. ¿Eu tenho a impressão de que o presidente vai soltando os balões para ver o impacto que causam¿, resume um de seus mais antigos auxiliares.

O caso Marta Suplicy é emblemático. Nos últimos dias, emissários do Planalto divulgaram informações contraditórias sobre o destino da ex-prefeita de São Paulo. Sem esconder a contrariedade com as pressões exercidas pelo PT para encaixar Marta no primeiro escalão, o presidente mostrou seu lado maquiavélico.

No início, Lula deixou os petistas pensarem que Marta poderia ocupar a cadeira do ministro da Educação, Fernando Haddad. Chegou mesmo a incentivar comentários nesse sentido, com a seguinte pergunta: ¿O que você acha de eu pôr a Marta no lugar do Haddad?¿ Depois, quando o PT já estava entusiasmado com a idéia, desautorizou a articulação.

Assessor de Assuntos Internacionais de Lula e vice-presidente do PT, Marco Aurélio Garcia foi encarregado de dizer aos companheiros que Marta não iria para aquela pasta. Só então o partido - que já aprovara a indicação da ex-prefeita para Educação - retomou o ataque especulativo ao Ministério das Cidades. Na semana passada, no entanto, um interlocutor de Lula fez chegar ao grupo de Marta a notícia de que ela não seria convocada.

Logo depois, na quinta-feira, o próprio presidente deu essa impressão ao receber no Planalto dirigentes e líderes do PSB. ¿O PT quer que a Marta venha para o governo, mas estou enfrentando dificuldades¿, disse Lula. ¿Como eu resolvo a questão do PP, que já tem trabalho consolidado em Cidades, para atender outra demanda?¿

O ministro das Relações Institucionais, Tarso Genro, jura que Lula foi mal-interpretado. ¿Não há qualquer restrição do presidente em pôr Marta no governo¿, garantiu Tarso, que participou da conversa com os socialistas. ¿A entrada da ex-prefeita na equipe é uma questão de equação política, e não de juízo de valor, já que ela é um quadro de alto nível.¿

Apesar de despertar a fúria do PT ao tentar enquadrar o partido, apelando para a tática do ¿morde-assopra¿, Lula se diverte com a situação. ¿Qual é a fofoca de hoje?¿, costuma perguntar ele. ¿Muitas vezes o presidente emite juízo sobre um fato político para questionar o interlocutor a respeito de um assunto importante, mas o ouvinte interpreta isso como se fosse informação, e não um raciocínio¿, ameniza Tarso. Conclusão: com muitos ingredientes de intriga, as reformas ministeriais do governo Lula viraram novelas embaladas por alta ansiedade.