Título: É possível combinar impostos e comércio
Autor: Mallaby, Sebastian
Fonte: O Estado de São Paulo, 21/02/2007, Economia, p. B3

Na última vez em que um democrata controlou a Casa Branca, ele defendeu a globalização. Entendeu que o comércio cria perdedores e buscou ajudá-los com políticas progressivas de impostos e gastos. Mas os líderes democratas de hoje flertam com a abordagem oposta. Eles são francos em suas reclamações sobre o comércio. No entanto, com a exceção notável de John Edwards, são surpreendentemente relutantes em propor aumentos de impostos.

É possível perceber o motivo da mudança de sentimento democrata. A globalização já não é o que era quando Bill Clinton promoveu no Congresso o Acordo de Livre Comércio da América do Norte e a Rodada Uruguai. O tamanho da economia da China quadruplicou; a Índia surgiu como concorrente; a sensação de insegurança, antes afetando apenas um punhado de setores vulneráveis, espalhou-se por grande parte da economia. No entanto, se os democratas reverterem a fórmula de Clinton, estarão duplamente errados. Engolirão a propaganda da esquerda sobre o comércio e a propaganda da direita sobre os cortes de impostos.

Paradoxalmente, as mudanças que tornaram a globalização menos popular tornaram a resistência a ela menos proveitosa. Nos anos 80, o comércio fazia pressão sobre setores grandes, verticalmente integrados: veículos, eletrônicos. No novo mundo da terceirização e das cadeias de suprimento globais, os empreendimentos verticalmente integrados foram divididos em processos separados; o comércio agora faz pressão sobre tarefas, não sobre setores.

A retaguarda de operações e o atendimento telefônico ao cliente podem ser transferidos para a Índia, e essa transferência pode afetar vários setores, dos bancos aos serviços médicos. A fabricação e a montagem de componentes pode ser terceirizada no México ou na Ásia, e essa mudança pode afetar tudo, dos brinquedos aos telefones.

Assim, o comércio agora ameaça os trabalhadores em mais setores. Mesmo que ele ainda provoque menos desemprego que a mudança tecnológica, não deveríamos ficar surpresos com a intensificação do sentimento antiglobalização. Mas o advento da concorrência em tarefas também torna os remédios protecionistas menos sensatos que nunca.

Na era dos setores verticalmente integrados, havia uma plausibilidade superficial no argumento econômico-nacionalista em favor das barreiras comerciais. As grandes corporações americanas que realizavam quase toda sua produção em casa enfrentavam rivais japonesas e alemãs igualmente enraizadas em seus países. Era compreensível afirmar: ¿Se eles ganham, nós perdemos¿. Hoje, no entanto, este quadro é mais complexo.

Os Estados Unidos S.A. se transformaram na Global S.A.: é difícil erguer barreiras comerciais sem romper as cadeias de suprimento das corporações americanas. O país que mais cresce no comércio mundial ilustra a situação. Mais de metade das exportações da China é fabricada por subsidiárias de companhias estrangeiras.

Os defensores das barreiras comerciais querem proteger tanto as corporações quanto os trabalhadores, mas esse raciocínio também está perdendo o sentido. O velho argumento em favor das tarifas baseava-se no fato de que os trabalhadores afetados pelo comércio eram, com freqüência, agrupados geograficamente: se o aço asiático barato prejudicasse uma cidade siderúrgica do Meio-Oeste americano, os protecionistas afirmavam que os trabalhadores do setor não poderiam se adaptar e encontrar novos empregos, pois o aço era a única sustentação de sua comunidade. Mas a nova concorrência em tarefas, em vez de setores, torna a tragédia da cidade-empresa cada vez mais rara. Se uma operadora de entrada de dados perder o emprego em Omaha, provavelmente poderá encontrar outro trabalho sem ter de se mudar.

Assim, o protecionismo comercial, que sempre prejudicou o crescimento econômico, perdeu os poucos argumentos que o sustentavam. A globalização causou angústias compreensíveis, mas as tarifas são um tratamento inútil. A alternativa de ajudar os perdedores da globalização com programas de gastos financiados por impostos é, de longe, mais promissora. Isso porque, ao contrário do que os conservadores afirmam sempre, os programas de impostos e gastos não precisam ser ruins para a economia.

Considere-se o trabalho de Peter Lindert, da Universidade da Califórnia em Davis. Num respeitável estudo publicado há três anos, Lindert analisou transferências financiadas por impostos em economias ricas e não encontrou relação com o índice de crescimento ou o PIB per capita. Segundo Lindert, isso não deveria surpreender. A quantidade de programas de impostos e gastos importa menos para o crescimento do que a qualidade desses programas.

Lindert não é um liberal que segue linhas partidárias. Ele argumenta que impostos altos na Europa não prejudicam o crescimento porque atingem o consumo e o trabalho, e não a poupança e o capital: isto é um ponto incômodo para os que defendem o sistema fiscal progressivo. Mas Lindert também argumenta que impostos altos são compatíveis com o crescimento se a receita é bem aplicada. Investimentos em educação e infra-estrutura pública impulsionam o crescimento de um país.

Programas que rompem a ligação entre emprego e seguro-saúde aumentam a flexibilidade dos trabalhadores. A assistência subsidiada à criança mantém as mulheres na força de trabalho, encorajando os empregadores a investir em seu treinamento. Nada disso significa que impostos altos sejam livres de riscos, especialmente se eles financiam programas que não resultam em crescimento - como benefícios para os idosos. Mas a oposição irrefletida ao aumento de impostos é equivocada. O governo pode e deve gastar mais para tornar o atendimento à saúde transferível e reciclar trabalhadores descolocados. É uma aposta muito melhor que o protecionismo.