Título: Por que o Ministério não sai
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Fonte: O Estado de São Paulo, 24/02/2007, Notas e Informações, p. A3
A biografia do presidente Lula foi construída em cima de inúmeras verdades, mas entre elas definitivamente não está a história de que o torneiro mecânico, depois líder sindical, ao se mudar para a política, levou consigo o que seria um dos seus mais invejáveis atributos, desenvolvido nas negociações das quais foi protagonista como representante da sua categoria profissional junto ao patronato e ao poder público, nos tempos sombrios do regime militar. Falamos, portanto, da história do Lula negociador capaz. Mesmo que tenha sido isso quando dirigente de um dos grandes sindicatos operários da América Latina, o dos metalúrgicos do ABC paulista, desde que se tornou político não cessam de se empilhar evidências irrefutáveis de que Luiz Inácio Lula da Silva não gosta de negociar e nem sabe fazê-lo. A palavra, instrumento do entendimento, ele a prefere para o seu uso exclusivo, nos parlatórios e palanques.
No PT, antes de chegar ao governo, Lula recorria ao princípio da autoridade - o temor reverencial por sua figura tanto na militância quanto na elite dirigente - para impor a sua vontade, sob a fachada de uma democracia interna nunca vista antes numa agremiação partidária brasileira. Foi esse autoritarismo, não a persuasão, que lhe permitiu, por exemplo, aplastar as sugestões de que, depois de três derrotas seguidas, deveria ceder a outro companheiro a candidatura presidencial de 2002. E foi esmurrando a mesa, quem sabe em sentido literal, que ele obrigou a legenda a se aliar a um partido inconfundivelmente burguês, o PL, e a engolir a candidatura a vice de um expoente do baronato industrial, o empresário José Alencar. Os fatos deram razão a Lula por haver exigido a quarta candidatura e a abertura petista à direita. Mas isso não modifica o essencial: ele chegou aonde queria pelas vias autocráticas, que o pouparam de trabalhosas negociações.
Recém-desembarcado no Planalto, Lula imaginou que a sua imensa popularidade bastaria para intimidar os velhos e não raro velhacos políticos que a ele aderiram, como de hábito, na expectativa do dá-cá. Foi aí que se começou a perceber que o Lula negociador hábil, paciente e calejado é uma peça de ficção. Já na formação do Ministério e, mais ainda, na sua reforma, o presidente não conseguia nem bater o martelo, soberano, como fazia no PT, nem saciar todos os pantagruélicos e conflitantes apetites da base aliada - como se liderar não fosse também desagradar e pagar a respectiva fatura, com a clara noção dos seus limites. Tratou de adiar as decisões que não podia ou não sabia tomar. É a conhecida compulsão de todos quantos padecem da fobia de escolher: eles atrasam e tornam a atrasar as soluções dos problemas, como quem espera que, nesse meio tempo, se desmanchem no ar.
Nesse sentido, a seqüência de adiamentos na montagem do Gabinete do segundo mandato - já são quatro, pela contagem mais recente - é a repetição do confrangedor espetáculo do tempo perdido no mandato anterior. Com a agravante de que, ampliada a coalizão para 11 partidos, e com o principal deles, o PMDB, fracionado numa penca de autênticas sublegendas, tantas se tornaram as bocas a alimentar que, se pudesse, Lula decretaria feita a reforma. Foi o que deu a entender, dias atrás, ao elogiar os ministros interinos, geralmente técnicos, substitutos dos titulares que se desincompatibilizaram. O governo está trabalhando, e bem, afirmou. Na realidade, sabendo que serão dispensados, os interinos não vêem a hora de ir para casa - como também não vêem os que não querem continuar -, e os demais, pendurados, apenas fazem expressão corporal de ministeriar, enquanto tentam puxar o tapete dos candidatos às suas cadeiras.
Pode não parecer à primeira vista, mas há um parentesco entre essa característica do presidente - o negociador inepto que ou decide de cima para baixo ou, impedido disso, nada decide para não descontentar alguém - e a origem do mensalão. Mais de uma vez o então deputado Roberto Jefferson comentou que o PT preferia comprar a aprovação aos projetos do Planalto na Câmara a negociar com os políticos a substância desses projetos. Se Lula fosse um negociador decidido e competente, com rumos bem traçados, provavelmente o seu partido se sentiria menos à vontade para fazer o que fez, à revelia - ou não - do chefe.