Título: Chávez e Kirchner pedem 'integração'
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Fonte: O Estado de São Paulo, 22/02/2007, Internacional, p. A11

O presidente venezuelano, Hugo Chávez, conclamou ontem todos os países da região a conceberem a América do Sul como 'uma única nação'. 'Queremos um espaço único, sólido e com coesão em toda a região. Não um espaço nacional venezuelano, argentino, brasileiro ou uruguaio - mas sim nacional sul-americano', afirmou Chávez, segundo o jornal venezuelano El Universal, após exaltar a 'profundidade' dos recentes acordos de cooperação entre os países da região.

O discurso foi feito durante um encontro com o presidente argentino, Néstor Kirchner, na bacia do Rio Orinoco, no qual ambos inauguraram o primeiro poço petrolífero explorado por uma empresa argentina (a Enarsa) na Venezuela. Segundo o venezuelano, o acordo seria um dos pontos de partida para a formação de um 'grande projeto nacional sul-americano'.

Chávez citou o caso da Petrocaribe, uma aliança com países caribenhos que permitiu à Venezuela inaugurar 'um modesto depósito' de gasolina e diesel na Ilha de Dominica. 'A Venezuela explora petróleo há cem anos e nunca havia ajudado seus irmãos do Caribe - tudo ia para o norte (os EUA)', disse.

Durante a visita, planejada para durar apenas 24 horas, Kirchner e Chávez assinaram três acordos de assessoria tecnológica e um contrato pelo qual o Banco de Desenvolvimento Econômico e Social da Venezuela financiará a maior cooperativa de laticínios da Argentina - a Sancor. Também foram firmados 13 memorandos de entendimento para promover negócios nos setores de energia, transporte, habitação e finanças.

Os dois presidentes anunciaram ainda que irão avançar nas discussões para criar o Banco do Sul - uma instituição financeira que iria substituir o Banco Mundial e o Fundo Monetário Internacional na região - e que a partir de segunda-feira serão emitidos US$1.500 milhões em Bonus do Sul, que financiam os dois governos. Ao final, Kirchner agradeceu o empenho da Venezuela em costurar a parceria entre a Enarsa e a estatal PDVSA, que vai permitir à petrolífera venezuelana explorar petróleo no Orinoco.

DIPLOMACIA DO PETRÓLEO

Os acordos com a Argentina são mais uma cartada da polêmica diplomacia do petróleo, por meio da qual o presidente venezuelano tem procurado ampliar sua influência na América Latina e no Caribe.

Com os cofres cheios, Chávez já usou seus petrodólares para comprar mais de US$ 3 bilhões em bônus da dívida externa argentina. Na Bolívia, ele criou, em parceria com a estatal local YPFB, a Petro Andina, que é controlada pelos bolivianos, mas financiada pela PDVSA. Na Nicarágua, procurou favorecer o sandinista Daniel Ortega nas eleições de novembro, fornecendo combustível barato para as prefeituras do país governadas por seus aliados.