Título: Os aliados fanáticos de Ahmadinejad no poder
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Fonte: O Estado de São Paulo, 23/02/2007, Internacional, p. A8

'Uma mudança de governo no Irã envolve 6 mil postos de trabalho. Mas o verdadeiro problema é que o presidente Mahmud Ahmadinejad (um populista, ex-prefeito de Teerã) não tem um corpo ideológico e cercou-se da equipe mais incompetente dos últimos 18 anos. Enquanto na China a elite é cosmopolita e lidera o povo analfabeto, no Irã acontece o contrário. Há casos de guardas revolucionários sem formação dirigindo projetos públicos de bilhões de dólares.'

É assim que um analista iraniano - que não quer divulgar o nome - descreve o estilo do governo de Ahmadinejad, um aliado natural da Guarda Revolucionária, força que ele integrou durante a guerra contra o Iraque (1980-88) e agora favorece generosamente a fim de consolidar sua base de poder no Irã.

Os guardas revolucionários transformaram-se não só no braço armado ideológico do poder, mas também num dos atores da economia iraniana, controlada pelo Estado graças ao petróleo (que representa um quarto do PIB) e a um robusto setor público. Em mais um ataque contra Ahmadinejad, o líder supremo do Irã, aiatolá Ali Khamenei, defendeu segunda-feira a aceleração da privatização do setor.

A Guarda Revolucionária é o outro exército do país - Khomeini fundou a tropa por decreto, em 1979, porque não confiava no Exército regular. Na quarta-feira, 60 mil de seus estimados 200 mil membros concluíram três dias de manobras terrestres que funcionaram como um novo lembrete: os guardas estão dispostos a sufocar qualquer ameaça ao poder e continuar representando os interesses do Irã no exterior por meio de uma de suas filiais, a Al Quds (Jerusalém), apontada como responsável pela ajuda ao Hezbollah no Líbano e ao Hamas na Palestina.

Com Ahmadinejad, eleito nas urnas em 2005, os guardas revolucionários comportam-se cada vez mais como homens de negócios - uma vocação originada no desejo caridoso de gerar emprego e renda para os veteranos da guerra contra o Iraque. A insatisfação silenciosa de muitos iranianos reformistas e dos empresários estrangeiros surge porque os guardas são pouco refinados nas relações econômicas e atuam com a truculência que lembra a máfia.

Em 2004, a Guarda Revolucionária não hesitou em abortar a cerimônia de inauguração do aeroporto Imã Khomeini, na capital (um monumento à ineficácia do setor público, operando parcialmente depois de quase 30 anos de obras). A gestão estava a cargo de uma companhia turca. Os guardas barraram os convidados, e o primeiro avião que deveria aterrissar teve de mudar seus planos no ar, desviando para Mehrabad (ainda o grande aeroporto de Teerã). Meses mais tarde, a gestão do aeroporto foi entregue a uma empresa com conexões com a Guarda Revolucionária.

Mais recentemente, em junho, um contrato de US$ 2,3 bilhões foi concedido a uma firma de engenharia associada à Guarda Revolucionária para a construção de um gasoduto à margem do Golfo. 'Pelo menos há uma esperança: se eles começarem a enriquecer, talvez percam o fervor revolucionário', acrescenta o funcionário.