Título: Relatório da ONU expõe Irã a sanções
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Fonte: O Estado de São Paulo, 23/02/2007, Internacional, p. A8
A entrega do relatório da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) sobre o programa nuclear iraniano deu o aval, ontem, para que o Conselho de Segurança (CS) da ONU comece a discutir a imposição de sanções mais duras contra Teerã. Segundo o documento - concluído um dia depois do fim do ultimato da ONU para que os iranianos paralisassem suas atividades nucleares -, o Irã acelerou os projetos de enriquecimento de urânio, desafiando a comunidade internacional.
Após a divulgação, o subsecretário de Estado americano, Nicholas Burns, anunciou que representantes dos cinco membros permanentes do CS (EUA, França, Rússia, Grã-Bretanha e China) se reunirão em Londres na segunda-feira para discutir novas ações contra Teerã. 'Esperamos que o Irã volte a ser repudiado pelo CS', disse Burns. A Rússia, que no passado barrou sanções muito duras contra o Irã, foi menos contundente. 'Não devemos perder de vista que nosso objetivo é chegar a uma saída política para esse problema e não aprovar resoluções e sanções', afirmou o embaixador do país na ONU, Vitaly Churkin.
O relatório, assinado pelo presidente da AIEA, Mohamed ElBaradei, diz que já foram instaladas duas cascatas (conjuntos) de 164 centrífugas na usina nuclear de Natanz e outras duas estarão prontas em breve. Os iranianos teriam levado para a usina grande quantidade de combustível nuclear e pretenderiam pôr em funcionamento até maio 3.000 centrífugas. As autoridades do país também teriam se recusado a cooperar com inspetores internacionais.
O teor do relatório não surpreendeu, já que Teerã nunca escondeu suas ambições de produzir urânio enriquecido (que serve tanto para gerar eletricidade quanto para fabricar armas atômicas), mas abriu um novo capítulo na disputa sobre o programa nuclear iraniano. 'Agora teremos de estudar a adoção de mais medidas no CS, o que isolará ainda mais os iranianos', disse a chanceler britânica, Margaret Beckett, pouco depois do primeiro-ministro de seu país, Tony Blair, descartar a hipótese de um ataque dos EUA ao Irã. 'Que eu saiba, ninguém em Washington planeja uma ação militar', afirmou.
A secretária de Estado americana, Condoleezza Rice, também negou que a Casa Branca buscasse o 'confronto' com Teerã e disse que Washington usaria o CS e 'outros meios disponíveis' para convencer o Irã a voltar às negociações. O governo iraniano, porém, manteve o tom desafiador: 'Resistiremos até o final às pressões internacionais. O povo do Irã considera seu direito o acesso à tecnologia nuclear', afirmou o presidente Mahmud Ahmadinejad.
Mohamad Said, vice-presidente da agência nuclear do Irã, disse que as exigências da ONU 'não têm base legal' e, em Teerã, mais de 700 estudantes protestaram na frente das embaixadas da França e da Grã-Bretanha em apoio ao governo.
O Irã diz que seu programa nuclear tem fins pacíficos, mas os EUA e parte da comunidade internacional suspeitam que o país queira fabricar armas. Segundo alguns analistas, os iranianos conseguiriam obter quantidade suficiente de urânio enriquecido para construir uma bomba atômica entre três e dez anos.
Em 23 de dezembro, o CS aprovou uma série de sanções limitadas ao Irã, como a proibição da venda para o país de materiais e tecnologias que poderiam ser usados na fabricação de mísseis e armas atômicas. Foi nessa ocasião que o CS estabeleceu o prazo vencido na quarta-feira para a suspensão das atividades nucleares. Entre as novas sanções que podem ser adotadas estão a proibição de viagens de autoridades iranianas e restrições às negociações com empresas do país, ainda que elas não estejam diretamente ligadas ao programa nuclear.
A discussão sobre tais sanções ocorrerá em meio a uma escalada de tensões entre o Irã e os EUA. A Casa Branca acusa Teerã de armar milícias xiitas no Iraque e em janeiro ampliou sua presença militar no Golfo Pérsico em resposta ao que chamou de 'atitude negativa' do Irã.
BUSHEHR
Nos próximos 10 dias, uma delegação iraniana deve viajar à Rússia para solucionar a disputa financeira que pode atrasar a entrega da usina da cidade iraniana de Bushehr - construída pelos russos. Autoridades de Moscou acusam o Irã de não pagar US$ 70 milhões previstos em contrato. Os iranianos negam a dívida e atribuem os atrasos ao fato de a Rússia estar cedendo à pressão de países que querem o fim de seu programa nuclear.
DISPUTA ANTIGA
08/2002 - Oposição no exílio denuncia a existência de uma usina de enriquecimento de urânio em Natanz e um reator de água pesada em Arak.
06/2003 - Relatório da AIEA, após inspeção em Natanz e Arak, diz que o Irã descumpriu o Tratado de Não-Proliferação Nuclear.
02/2006 - A AIEA aprova o envio do caso do Irã ao Conselho de Segurança da ONU. O Irã religa centrífugas de Natanz depois de uma suspensão de 2 anos e meio.
07/2006 - CS da ONU pede que o Irã suspenda o enriquecimento até 31 de agosto.
12/2006 - CS aprova sanções limitadas e dá mais 60 dias para o Irã suspender seu programa.
02/2007 - Relatório da AIEA diz que o Irã instalou mais 164 centrífugas em Natanz.