Título: Serra e Lula esboçam parceria administrativa
Autor: Lopes, Eugênia
Fonte: O Estado de São Paulo, 03/03/2007, Nacional, p. A8

O governador de São Paulo, José Serra (PSDB), pediu ontem ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva a estadualização do Porto de Santos e da Companhia de Abastecimento de São Paulo (Ceagesp), ambos sob administração federal. Em nova demonstração de que vivem uma fase de aproximação, os dois adversários políticos conversaram por mais de uma hora no Palácio da Alvorada, residência oficial do presidente.

Serra fez também um pedido para a cidade de São Paulo, solicitando que a União ceda metade do terreno do Campo de Marte, aeroporto administrado pela Aeronáutica, para que a prefeitura construa um centro de convenções. ¿O presidente disse que em 15 dias a gente voltaria a conversar sobre esses temas¿, disse o governador, ao deixar o Alvorada.

Lula não se manifestou sobre o encontro, mas o ministro da Fazenda, Guido Mantega, que também participou da reunião, comentou com certa simpatia os pedidos de Serra. ¿São questões normais da administração pública. Há interesses entre o governo federal e o governo estadual.¿

Segundo Serra, a transferência do Porto de Santos e da Ceagesp para o Estado ¿não custará um centavo sequer para o Tesouro Nacional¿. Conforme antecipou o Estado, a proposta do governador é receber o porto, assumir sua administração, mas não a antiga dívida trabalhista que tem hoje a Companhia Docas do Estado de São Paulo (Codesp). ¿O Porto de Santos e a Ceagesp dão prejuízo. Propomos administrar e absorver o prejuízo.¿

O governador aponta como um dos problemas da atual gestão o loteamento político do porto e da Ceagesp. Ele garantiu que, se estadualizados, a administração do porto e da companhia seria profissionalizada. ¿A questão do Porto de Santos é mais complexa e teremos de fazer uma comissão para formular um modelo¿, afirmou. ¿A Ceagesp precisa ter uma administração mais flexível, mais local, para melhorar a logística de abastecimento da Grande São Paulo¿, avaliou. Serra explicou a Lula que o porto enfrenta problemas de dragagem, que não é feita adequadamente.

PARCERIA

Durante o encontro, o presidente pediu, em contrapartida, a parceria do Estado na área de urbanização de favelas, em projetos educacionais e de capacitação da juventude.

Ao deixar o Alvorada, Serra - que criticara o Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) logo depois de seu lançamento - adotou retórica cooperativa, dizendo que não atrapalhará a aprovação das propostas do pacote em tramitação no Congresso. ¿A gente não joga no quanto pior melhor. Ninguém vai trabalhar contra o Brasil. Estamos trabalhando de maneira construtiva.¿

O tucano assegurou que não tratou de política econômica com o presidente, versão confirmada por Mantega. Indagado por jornalistas sobre as críticas que tem feito à política de juros do Banco Central, Serra preferiu evitar o assunto. ¿Meu pensamento é a respeito da política macroeconômica. Não vou depois de uma audiência com o presidente abordar esse tema.¿

Mantega também tratou o assunto com cautela: ¿Somos economistas e nos conhecemos há anos. Temos um bom diálogo e continuaremos tendo.¿

Serra disse ainda que prefere ¿aguardar por escrito¿ a proposta do governo para a reforma tributária antes de fazer novos comentários sobre a cobrança do Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS) no destino - onde o produto é vendido - e não mais na origem. ¿Sobre toda proposta, é preciso saber quanto custa, quanto perde, quais são os mecanismos de compensação, como se faz a transição. Tenho enorme cancha nessa matéria tributária para saber que não é nada simples. É tudo muito difícil¿, observou ele, que confirmou presença na reunião entre os governadores e Lula na terça-feira.