Título: EUA, e não China, são fonte de tensão, diz Goldfajn
Autor: Chiarini, Adriana
Fonte: O Estado de São Paulo, 06/03/2007, Economia, p. B3
As turbulências nos mercados financeiros mundiais que começaram na semana passada e continuaram ontem têm sua explicação principal nos Estados Unidos e não na China, acredita o ex-diretor do Banco Central e sócio da Ciano Investimentos, Ilan Goldfajn. 'O que aconteceu na China não foi nada significativo', disse. 'A crise está saindo do centro para países como o Brasil. Não é uma crise da Ásia, da Rússia... É uma crise que está nascendo no centro', afirmou Goldfajn, durante apresentação no seminário 'Cenários da economia brasileira e mundial em 2007', da Fundação Getúlio Vargas (FGV).
Segundo Goldfajn, ainda é cedo para saber as causas e a extensão do problema. Mas há sinais de aumento de risco e de desaceleração nos Estados Unidos. De acordo com ele, o impacto para o mundo já seria significativo se os EUA crescerem 2% em vez de 3,5% este ano. 'É uma desaceleração. Não estamos ainda falando de recessão.'
Segundo o ex-diretor do BC, 'é difícil saber' se as turbulências vão continuar. Mas o que está acontecendo 'já não é coisa de poucos dias'. Goldfajn destacou a queda do preço dos imóveis no mercado americano, que já vinha ocorrendo antes das turbulências financeiras. Lembrou que isso significa perda de patrimônio para os proprietários. Conseqüentemente, argumenta, pode provocar uma redução do consumo por parte da população americana.
Por esse motivo, Goldfajn disse não acreditar na tese de que uma desaceleração nos Estados Unidos possa ser compensada pelo crescimento de regiões como a China, a Índia e a União Européia. Para ele, o ritmo de crescimento mundial será afetado por uma expansão menor da principal economia.
O ex-presidente do BC Carlos Langoni afirmou que 'é uma ilusão' achar que a economia mundial pode crescer sempre, pois 'não existe mundo sem volatilidade'. Ele deixou em aberto se as turbulências recentes no mercado mundial são 'só um ajuste ou se é um sinal amarelo de alguma crise mais grave'. Mas contou estar trabalhando com um cenário de pouso suave da economia americana.
O economista do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) Fábio Giambiagi comentou que 'ninguém acha que haja problemas sérios com a economia chinesa'. Já no caso da economia americana, 'todo mundo sabe que tem um problema moderado fiscal e um problema grave no balanço de pagamentos somado a um boom do mercado imobiliário'. Porém, minimizou os efeitos disso. 'O que seria um problema na economia americana? Em vez de crescer 3,5%, crescer 2,5%?'
Giambiagi, Langoni e Goldfajn ressaltaram que o Brasil reduziu muito sua vulnerabilidade a crises internacionais. Atualmente, as reservas internacionais do País, em US$ 100 bilhões, são maiores que a dívida externa e há saldo positivo na conta corrente com o exterior. 'Isso confere uma fortaleza inequívoca', disse Giambiagi. 'Estamos falando de fenômenos completamente diferentes de 95, 97 e 98', afirmou, referindo-se às crises cambiais do México, da Ásia e da Rússia.
FRASES
Ilan Goldfajn Ex-diretor do BC
'A crise está saindo do centro para países como o Brasil. Não é uma crise da Ásia, da Rússia... É uma crise que está nascendo no centro'
Fábio Giambiagi Economista do Ipea
'Ninguém acha que haja problemas sérios com a economia chinesa'