Título: Eleição local testa estratégia de Putin
Autor: Gutterman, Steve
Fonte: O Estado de São Paulo, 11/03/2007, Internacional, p. A23
As eleições regionais de hoje na Rússia são o tiro de largada para o que promete ser um ano de votações coreografadas, produtos de uma persistente campanha do Kremlin para controlar o processo político e garantir uma sucessão tranqüila quando o presidente Vladimir Putin se retirar. Impedido pela Constituição de buscar um terceiro mandato consecutivo nas eleições de março de 2008, Putin dá indícios de que escolherá um sucessor e continuará a exercer sua influência - uma perspectiva lucrativa em um país rico em recursos energéticos e onde a política e os negócios estão intimamente ligados.
Com tanta coisa em jogo, Putin não quer deixar margem para o acaso. O sistema em vigor para as votações regionais foi elaborado pelo Kremlin durante anos de esforços que, segundo seus críticos, sufocaram o pluralismo e rebaixaram a democracia. Nas eleições de hoje, dois grandes partidos disputam cadeiras em 14 assembléias regionais. Um punhado de grupos menores completa a cédula eleitoral.
Pode parecer um exercício normal de democracia, mas os ingredientes principais são: leis eleitorais restritivas, rígido controle da televisão, armadilhas burocráticas para atrapalhar oponentes, e a criação de um partido político destinado a ampliar a base de apoio do Kremlin.
O partido Rússia Justa está no centro da estratégia do Kremlin para controlar o sistema político. O grupo é liderado pelo presidente da Câmara Alta do Parlamento, Serguei Mironov, que demonstrou lealdade a Putin em 2004, concorrendo contra ele no que chamou de 'gesto de apoio'. A iniciativa foi vista como uma manobra para dar a aparência de competição à vitória certa de Putin.
Desta vez, o papel de Mironov é mais complexo. Seu bloco sustentaria a legitimidade das eleições, transformando-as numa disputa direta com o Rússia Unida. Ao mesmo tempo, a disputa entre dois partidos pró-Putin parece destinada a ampliar a base de apoio do líder russo, roubando votos de comunistas, de outros esquerdistas e dos nacionalistas. O objetivo seria garantir a autoridade e a estabilidade do sucessor de Putin. 'Se o Kremlin quer recriar a maioria de Putin sem Putin, precisa de dois partidos', disse o analista político Alexei Zudin. Embora haja sinais de competição entre o Rússia Justa e o Rússia Unida, analistas dizem que os dois grupos apóiam Putin e que ambos lançarão um candidato único na eleição presidencial. 'O Kremlin tem muito medo de correr riscos. Por isso, é necessário que a elite esteja unida em torno de um candidato único', disse Tatyana Stanovaya, analista do Centro de Tecnologias Políticas.
No mês passado, Putin declarou que essa união era necessária para manter a Rússia no rumo que ele impôs. Apesar das promessas de eleições democráticas - uma resposta às críticas do Ocidente -, há poucos sinais de mudança. As votações serão realizadas sob regras que levantaram obstáculos aos partidos e reduziram as escolhas dos eleitores.
Todas as cadeiras parlamentares serão preenchidas pelo voto em listas partidárias, o que significa que os russos não poderão escolher candidatos específicos. A votação mínima para que um partido ganhe cadeiras passou de 5% para 7%. Para entrar nas disputas regionais, os partidos tiveram de pagar uma alta taxa de registro ou apresentar milhares de assinaturas, o que submeteu potenciais desafiantes aos caprichos de autoridades muitas vezes intimamente ligadas ao Rússia Unida.
A União das Forças de Direita, conhecida pela sigla em russo SPS, foi barrada na disputa em quatro regiões. Numa delas, o partido não fez o pagamento a tempo porque o número informado da conta bancária estava errado. O líder partidário Nikita Belykh afirmou que, em outras regiões, candidatos se retiraram por causa de intimidação. Numa região siberiana onde o SPS está na disputa, por exemplo, apareceram panfletos retratando Belykh ao lado do ocupante da cadeira regional, que está sob investigação criminal.
Em São Petersburgo, o partido liberal Yabloko foi barrado pelas autoridades eleitorais, que declararam inválidas muitas das assinaturas recolhidas pela agremiação. O Yabloko reuniu as assinaturas por achar muito alta a nova taxa de registro - 90 milhões de rublos, o equivalente a US$ 3,5 milhões. As tentativas do partido de apelar da decisão fracassaram, embora eleitores cujas assinaturas foram declaradas inválidas tenham testemunhado confirmando sua autenticidade.
Boris Vishnyevski, assessor do Yabloko, afirmou que a governadora de São Petersburgo, Valentina Matviyenko, aliada do presidente Putin, está decidida a silenciar as críticas de seu partido. 'Sabíamos que fariam de tudo para nos deixar de fora das eleições, e foi o que aconteceu', disse ela. 'Não víamos métodos tão descarados desde o colapso da União Soviética.'