Título: Líder russo guarda todos os curingas da política
Autor: Lapouge, Gilles
Fonte: O Estado de São Paulo, 11/03/2007, Internacional, p. A23

As eleições presidenciais russas acontecem daqui a um ano, em 8 de março de 2008. Será cedo demais para se preocupar com elas? Talvez, mas essa não é absolutamente a opinião do atual presidente, Vladimir Putin, eleito pela primeira vez em 2000, reeleito em 2004, mas que poderia manobrar para alcançar um terceiro mandato em 2008.

Putin enxerga longe. Esse homem glacial é um calculista. Ele tem nervos de aço, como bom lutador de caratê. Mas ele é também do país onde o jogo de xadrez é uma arte e uma paixão. No xadrez, ganha aquele que antecipa o maior número de jogadas. Putin começou a partida bem cedo.

Descrevamos a ¿Diagonal Putin¿: em 1º de fevereiro, ele anunciou que não concorreria nas eleições porque tem o coração mole e teria horror de ¿violar a democracia¿. Conclui-se daí que ele acaba de designar indiretamente aquele que será seu delfim: seu primeiro vice-primeiro-ministro, Dmitri Medvedev.

Mal havia avançado esse peão, contudo, Putin abriu um novo front: em 15 de fevereiro ele remanejou o governo nomeando um segundo vice-primeiro-ministro. Nesse posto, ele instalou Serguei Ivanov, que chefiava do Ministério da Defesa, um outro delfim potencial. E aqui estamos, com um delfim a mais. Putin não tem pressa de escolher. Ele o fará, com certeza, mas não agora, mais tarde, em função das necessidades. A habilidade de Putin é tanta que os dois campeões têm perfis muito diferentes, o que permitirá a Putin desembainhar, no momento oportuno, o ¿duro¿ ou o ¿moderado.¿

O ¿duro¿ é o novo promovido, Serguei Ivanov, ex-ministro da Defesa. Trata-se de um posto estratégico, mas incômodo, e que não assegura uma grande popularidade a seu titular. O Exército russo anda tão deteriorado que toda a semana explode um novo escândalo. Isso sem falar que os jovens soldados são tratados de maneira bárbara por seus oficiais. Ao retirar Ivanov do Exército, Putin permite que ele melhore sua imagem.

Serguei Ivanov tem muitos pontos em comum com Putin: oriundo de São Petersburgo, como Putin, é um veterano da KGB. Ele faz parte daqueles ¿siloviki¿, ou ¿espiões¿ dos quais Putin se cerca. Esses homens têm uma obsessão por restaurar a grandeza da Rússia, afagando as nostalgias dos que lamentam, seja o tempo dos czares, seja o tempo em que a URSS era uma das duas superpotências.

Alguns dias atrás, Putin pronunciou um discurso muito exaltado em Munique, em que atacou o Ocidente com uma violência que lembrou os piores momentos da Guerra Fria. Ele acusou os Estados Unidos de extrapolarem seus limites em todos os campos e de comprometerem a segurança no mundo. E quem se achava ao lado de Putin, em Munique, durante esse discurso de guerra? Serguei Ivanov, precisamente, que ainda era o ministro da Defesa. As coisas estão claras, portanto: Ivanov, o novo vice-primeiro-ministro, inicia a corrida para a futura eleição presidencial com o casaco do ¿duro.¿ Mas Putin, como bom organizador de corridas que é, não se contenta em fazer correr um cavalo apenas. Ele também patrocina, ao lado de Ivanov, o duro, um ¿agregador¿, o outro vice-primeiro-ministro, Medvedev.

Medvedev é o patrono dos ¿moderados¿, dos que desejam uma abertura para o Ocidente por meio de uma política de pacificação e uma economia menos estatista, quase liberal. Há pouco tempo, Putin designou como delegado ao Fórum Econômico de Davos, esse grande rendez-vous anual da economia ocidental, precisamente Medvedev, que ¿fez maravilhas¿. Sedutor, amável, ele apresentou aos políticos e aos homens de negócio ocidentais o semblante de uma Rússia operosa, bonachona, vinculada aos valores democráticos, ávida por comerciar com a Europa.

A todos esses méritos, Dmitri Medvedev acrescenta outro: ele figura na direção da Gazprom, isto é, na arquitetura de gás que sustenta (junto com o petróleo) o poder de Putin no campo da economia, da política interna e da política externa. A Rússia de hoje, a Rússia conquistadora de Putin, é o gás e o petróleo. Assim, Putin tem duas caras dependendo do ¿delfim¿ que se olhe. E, dentro de um ano, ele escolherá um deles, isto é, um perfil ou o outro, em função da conjuntura do momento. Cômodo! Putin parece o morcego que, conforme o inimigo que o ataca, diz: ¿Sou um camundongo, veja meu pêlo!¿ ou então ¿Sou uma ave, veja minhas asas!¿

É claro que haverá outros candidatos nessas eleições presidenciais de março de 2008. O do Partido Comunista (sem dúvida, Guennadi Ziuganov), o do PLDR (Partido Liberal Democrata da Rússia, extrema direita fascista, racista e neonazista de Vladimir Jirinovski), que podem conseguir entre 10% e 20% cada. Mas ninguém duvida de que Putin, por conta de suas brilhantes conquistas econômicas, do orgulho que ele devolveu a um povo cansado de humilhações, e, sobretudo, da mão de ferro com que controla toda a vida de seu país (televisão, jornais, polícia, etc.), possa impor o candidato de sua escolha.

A questão retorna então a Putin: será que ele pretende continuar seu reinado por outras vias? Tornar-se uma espécie de Deng Xiaoping, que continuou dirigindo a China dos bastidores bem depois de afastar-se do poder ? Ou então, se instalará à frente da Gazprom para impor sua diplomacia não só á Rússia mas também aos antigos satélites da URSS, à Europa e ao mundo?

Alguns atribuem projetos mais complexos a ele. Por exemplo, ele assumiria a direção da CEI, essa Comunidade de Estados Independentes que foi criada depois da dissolução da URSS, mas que nunca conseguiu se impor. Putin, com sua energia, seu talento e sua astúcia, poderia se empoleirar no topo do edifício institucional, tendo sob suas ordens diretas seu futuro sucessor no Kremlin. Outra hipótese: que amanhã Putin reenvie para as trevas Ivanov ou Medvedev, ou os dois de uma vez, e tire da cartola um terceiro coelho. Basta olhar uma vez o rosto de Putin para saber que não se decifrará jamais essa máscara impenetrável. Em Moscou, diz-se que apenas uma criatura conhece as intenções de Putin. Trata-se de Connie, sua cadela Labrador.