Título: Guerra pode se espalhar, alerta Iraque
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Fonte: O Estado de São Paulo, 11/03/2007, Internacional, p. A24

O primeiro-ministro iraquiano, Nuri al-Maliki, pediu ontem aos rivais na região que parem de usar o Iraque como um campo de batalha para travar guerras indiretas contra os EUA e advertiu que a crescente violência sectária pode se espalhar pelo Oriente Médio. O alerta foi feito durante uma conferência internacional em Bagdá para tentar conter o conflito sectário que ameaça dividir o Iraque e já deixou dezenas de milhares de mortos desde a invasão liderada pelos EUA para depor Saddam Hussein, quatro anos atrás.

Participaram do encontro representantes de países vizinhos (incluindo Síria e Irã), de integrantes da Liga Árabe e dos membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU - EUA, Grã-Bretanha, França, Rússia e China. Desde o início da guerra, esta foi a primeira vez que Estados Unidos, Síria e Irã sentaram-se à mesma mesa de discussão.

O embaixador americano no Iraque, Zalmay Khalilzad, também pediu às nações que têm fronteira com o Iraque - como o Irã e a Síria - que ampliem a ajuda ao governo de Maliki. 'O futuro do Iraque e do Oriente Médio é a questão definidora de nossa época', afirmou Khalilzad.

O chanceler iraquiano, Hoshiyar Zebari, disse após o fim da conferência que as conversações foram positivas e obtiveram bons resultados, sem dar detalhes.

'O Iraque se tornou a linha de frente do campo de batalha', disse Maliki em seu discurso de abertura da conferência, acrescentando que todos os que estão comprometidos com a paz no Oriente Médio devem permanecer firmes contra o terrorismo no Iraque. 'Peço a todos que assumam a responsabilidade moral e adotem uma posição clara e firme contra o terrorismo no Iraque, cooperando para reprimir as forças do terror', acrescentou. 'Esta é uma epidemia internacional, cujo preço está sendo pago pelo povo iraquiano. Confrontar o terrorismo significa conter qualquer forma de apoio financeiro ou religioso, assim como o suporte logístico, o fluxo de armas e homens, que se transformam em bombas para matar nossas crianças, mulheres e idosos, e destruir nossas mesquitas e igrejas.'

O governo americano acusa Irã e Síria de incentivar a violência no Iraque, algo que os dois países desmentem. Funcionários de segurança na região dizem que extremistas sunitas da vizinha Arábia Saudita também estão entrando no Iraque.

O embaixador americano anunciou que a secretária de Estado, Condoleezza Rice, participará de um planejado encontro ministerial sobre o Iraque entre países da região e do Ocidente que será realizado em abril em Istambul, Turquia.

Khalilzad pediu aos vizinhos do Iraque que façam mais para conter o fluxo de combatentes e de armas, além da propaganda sectária que acirra a violência. 'Nenhum país representado nesta mesa pode se beneficiar de um Iraque desintegrado', declarou. 'Com certeza, todos sofreriam seriamente.' Ele disse esperar que a presença dos enviados de países vizinhos seja um sinal de que eles estão 'prontos para assumir ações concretas e construtivas' para apoiar o Iraque neste momento.

O embaixador americano não fez nenhuma menção específica ao Irã durante suas declarações, mas indicou que Washington vê com preocupação a crescente influência de Teerã na região. Ele também reiterou a acusação dos EUA de que a Síria permite que jihadistas estrangeiros e rebeldes sunitas entrem no Iraque através de sua fronteira e que armas do Irã cheguem às milícias xiitas.

O encontro de um dia era visto como uma oportunidade para quebrar o gelo entre o Irã e os EUA. Khalilzad disse que conversou diretamente com os representantes iranianos durante o encontro, mas o vice-chanceler do Irã, Abbas Araghchi, afirmou que não houve nenhum diálogo direto com os funcionários americanos. Ele descreveu as discussões como construtivas, mas pediu a saída das tropas americanas do Iraque, dizendo que elas alimentam o ciclo de violência.

A segurança foi extremamente reforçada em Bagdá durante a conferência, realizada no edifício da chancelaria, na superprotegida Zona Verde (onde ficam os ministérios iraquianos e a Embaixada dos EUA). Mas, logo após o início do encontro, dois ataques com granadas de morteiro foram lançados perto da chancelaria, sem acarretar feridos. Em Cidade Sadr, bairro que é reduto xiita da capital, a explosão de um carro-bomba deixou pelo menos 20 mortos e 48 feridos. Os ataques ocorreram apesar de o governo iraquiano ter garantido que Bagdá estava segura para o encontro e de Maliki ter passeado na véspera pela capital para reforçar a declaração.

Ainda ontem, o presidente americano, George W. Bush, enviou uma carta à presidente da Câmara, a democrata Nancy Pelosi, revisando o pedido de US$ 100 bilhões em fundos para as guerras no Iraque e Afeganistão. O envio de mais 2 mil soldados extras ao Iraque, além dos 21.500 previstos inicialmente, custará mais US$ 3 bilhões.