Título: PT insiste em encaixar Marta na equipe de Lula e atropela aliados
Autor: Rosa, Vera
Fonte: O Estado de São Paulo, 04/03/2007, Nacional, p. A10
Às vésperas da reforma ministerial, é intensa a operação de bastidor deflagrada nos últimos dias para tentar encaixar a ex-prefeita de São Paulo Marta Suplicy (PT) na equipe do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. A pedido de Lula, o ministro das Relações Institucionais, Tarso Genro, sondou o presidente do PP, deputado Nélio Dias (RN), e o líder do partido na Câmara, Mário Negromonte (BA), sobre a possibilidade de um acordo para a legenda entregar o Ministério das Cidades. Em troca, ofereceu não apenas a Agricultura como o comando da Infraero.
Tarso disse, ainda, que o governo poderia compensar o PP com estatais à escolha da sigla. Tudo com o objetivo de abrir vaga para Marta em Cidades. O problema é que o PP recusou a oferta, apresentada no domingo à noite. Além disso, prometeu ir para a oposição, caso seja obrigado a ceder a cobiçada cadeira. 'O PT não pode pôr a faca no pescoço do presidente Lula para ele voltar atrás em acordos nos quais já deu sua palavra', reclama Negromonte, expondo com todas as letras o racha na base aliada. 'O Ministério das Cidades é nosso!'
Dona de temperamento explosivo e sem paciência para o que chama de 'conversa mole', Marta foi taxativa: pediu a seu grupo que submergisse no burburinho sobre a reforma, prevista para ocorrer após a convenção do PMDB, dia 11, ou até mesmo antes, se Lula conseguir fechar tudo até quarta-feira.
Dias antes de saber da dura conversa com o PP, a ex-prefeita recebeu telefonema de Tarso. O ministro foi escalado para dissipar boatos de que Lula não a queria no primeiro escalão.
Interlocutores acostumados a decifrar os humores do presidente garantem: o que ele não quer, mesmo, é parecer pressionado pelo PT. Foi por isso que a cúpula do partido, enquadrada pelo Planalto, mudou de estratégia. Num recuo tático, guardou a lista das indicações que entregará a Lula, embora todos saibam que Marta está no topo, e decidiu trabalhar em silêncio.
'Queremos sair desse fogo cruzado', afirma o deputado Jilmar Tatto (SP), 'martista' de carteirinha e terceiro vice-presidente do PT. 'Para que ficar nos desgastando assim?' Na prática, o grupo de Marta acumula forças no PT e disputa espaço com outras facções, que, numa referência ao governo de coalizão, defendem também uma 'coalizão interna' para o preenchimento de cargos na Esplanada. 'Esperamos que não seja premiada apenas uma força política', resume o secretário de Organização do partido, Romênio Pereira, do 'Movimento PT'.
Marta já é pré-candidata à prefeitura em 2008 e alguns de seus discípulos articulam até aliança com o PP - o mesmo que disputa Cidades com o PT. Mas a ex-prefeita sonha com vôo mais alto: está de olho na sucessão de Lula, em 2010. Por enquanto, ela não pretende abandonar os planos para o ano que vem, mesmo se for ministra. Tem, em sua empreitada, o apoio do ex-chefe da Casa Civil José Dirceu, deputado cassado após o escândalo do mensalão.
A superexposição de Marta contraria Lula, que ainda não escolheu quem ungirá como herdeiro e, claro, não tem interesse em abrir a temporada de sua sucessão com tanta antecedência.
Enquanto os aliados dão cotoveladas públicas no ringue político, os articuladores da candidatura de Marta ao Ministério das Cidades atuam nos bastidores. Na quarta-feira, por exemplo, o deputado Cândido Vaccarezza (PT-SP) foi flagrado pelo Estado em animada conversa com Paulo Maluf (PP-SP), para sondar os seus interesses. De arquiinimigo no passado, Maluf se aproximou de alguns petistas nos últimos tempos. Garante, porém, não endossar planos para 'rifar' Márcio Fortes, titular de Cidades. 'Se o presidente Lula me consultar, eu direi que ele deve manter Fortes', diz.
No contra-ataque, um dirigente do PT usou a reunião da Executiva, na segunda-feira, para defender o ultimato a Lula. 'Vamos dizer ao presidente o seguinte: companheiro Lula, é preciso pôr em Cidades, Educação, Saúde e Transportes quadros de grande visibilidade, porque é de dentro desses ministérios que vai sair o seu sucessor', bradou o petista, de uma corrente de esquerda. Todos se entreolharam. Ninguém, no entanto, mostrou muito entusiasmo com a proposta.