Título: Jovens sem esperança
Autor: Caldas, Suely
Fonte: O Estado de São Paulo, 04/03/2007, Economia, p. B2

Desmentidas todas as previsões do Ministério da Fazenda, que caíram de 4,5% até agosto para 4% em setembro e 3,2% em novembro, em 2006 o produto interno bruto (PIB) só cresceu mesmo 2,9%, uma taxa medíocre e humilhante, o quinto ano de exuberância da economia mundial que o Brasil desperdiça, e perde a chance de dar a virada há mais de 20 anos perseguida sem sucesso. O presidente Lula errou feio em suas previsões e promessas: o espetáculo do crescimento virou tragédia e os 10 milhões de novos empregos, uma balela. Em vez disso, 4,4 milhões de jovens entre 15 e 24 anos estão desempregados e, pelo segundo ano consecutivo, o Brasil perdeu de todos os países latino-americanos, à frente só do Haiti, um país devastado pela guerra. Quando a geração de empregos é insuficiente para absorver a população desocupada, os jovens são os mais prejudicados, porque sua inexperiência conta ponto negativo na disputa por um emprego. Valores e desejos de liberdade e independência financeira, que afloram na juventude, quando frustrados, costumam desencadear crises existenciais de desfechos diversos - da rebelião sem sentido nem direção ao refúgio nas drogas e conflitos agressivos com os pais. Nos últimos dez anos, o número de jovens desempregados, entre 15 e 24 anos, mais do que dobrou, saltando de 2,1 milhões para 4,4 milhões, informa levantamento feito pelo economista Márcio Pochmann, da Unicamp, com base em dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) do IBGE. Quando assumiu a Presidência, em 2003, Lula criou o Programa Primeiro Emprego, que nunca decolou e acabou esquecido. Seria saudável para a sociedade se o governo e o setor privado agissem em parceria em favor dos jovens, mas a política pública realmente capaz de concretizar suas esperanças de trabalho e salário, sem dúvida, é a do crescimento e do desenvolvimento econômico, do aumento da oferta de empregos, que alcança toda a população trabalhadora, inclusive os jovens. Concentrar a culpa do baixo crescimento na taxa de juros e no Banco Central é simplificar e distorcer grosseiramente o problema. A taxa para capital de giro é realmente elevada, mas o crédito do BNDES para investimento custa 6,5% de juros (TJLP). A medíocre expansão da nossa economia em contraste com o desempenho da economia mundial decorre de uma situação esdrúxula e rara no mundo, a de um país em que, sozinho, o governo se apropria de quase 40% da renda nacional, aplica só 1% em investimentos e gasta todo o resto. Onde? Só o déficit previdenciário (do INSS e do setor público) engoliu quase R$ 100 bilhões em 2006; o Poder Executivo, menos; mas no Legislativo e no Judiciário há estruturas infladas de funcionários e salários muito altos, quando comparados com a média do setor privado. Não é à toa que o PIB per capita de Brasília é o mais elevado do País. Há desperdício de dinheiro em viagens, diárias, gastos cotidianos, porque há desleixo com o uso do chamado 'dinheiro da viúva'. E há ainda uma dívida pública gigante a ser paga e que devorou R$ 160 bilhões com o pagamento de juros no ano passado. Se o governo se apropria de parcela tão expressiva da renda e investe quase nada, passa a depender do setor privado para produzir crescimento. Mas as empresas (e nós, cidadãos, também) têm limitações, porque pagam uma carga tributária elevada justamente para sustentar um governo que gasta muito e mal. Evidentemente, esta situação precisa mudar, e mudar implica fazer as reformas tributária e previdenciária, para as quais o governo Lula não tem proposta, ou as adia, ou terceiriza, transferindo a responsabilidade para sindicalistas que nada querem mudar. Outra trava ao crescimento e à geração de empregos é o elevado custo de contratar mão-de-obra. A reforma trabalhista, que nada avançou nos governos FHC e Lula, é fundamental para tirar da informalidade 53% dos trabalhadores brasileiros que vivem sem nenhum direito trabalhista. Despolitizar os cargos públicos que regulam e fiscalizam investimentos em infra-estrutura, como as agências reguladoras, também ajuda - e muito - a convencer investidores a aplicarem seu dinheiro no Brasil. Lula sabe de tudo isso. Se quer um PIB de 5% ou 6%, comece a fazer por onde.