Título: Solavanco na China estremece o mundo
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Fonte: O Estado de São Paulo, 04/03/2007, Economia, p. B4
Em um dia ruim, os aposentados esparramados nas cadeiras de plástico do lobby de uma corretora de Xangai aparentam pouca emoção enquanto seu patrimônio diminui diante de seus olhos - o drama está todo nos números piscando nas grandes telas. Em um dia bom, a sala se enche de ruídos animados.
Nos últimos dias, houve vários altos e baixos. E momentos iguais estão por vir. 'O mercado chinês está em rota de correção. É normal que os preços flutuem', diz a corretora veterana Zhang Meizhen. 'Minha estratégia é evitar o risco não colocando muito dinheiro no mercado nesse exato momento.'
A última semana foi turbulenta e histórica para o mercado de capitais chinês. Com um total de investimentos de US$ 1,4 trilhão - um terço do tamanho da Bolsa de Valores de Tóquio, a maior da Ásia -, a Bolsa de Xangai abalou todos os mercados do mundo pela primeira vez em 15 anos de existência, quando despencou quase 9% na terça-feira passada.
A queda provocou uma reação em cadeia, levando Wall Street ao seu pior dia desde 11 de Setembro de 2001 e espalhando perdas na Europa e em outros mercados asiáticos.
As ações chinesas recuperaram perto de 4% na quarta-feira, antes de cair 3% de novo no dia seguinte. Na sexta, o índice da Bolsa de Xangai foi 1,2% superior ao do encerramento da semana e ainda 5,8% maior que o do começo do ano. 'Se a queda de terça foi um terremoto, o resto da semana deveria ser visto como tremores de menor magnitude', diz Zhu Haibin, um analista da Corretora Everbright.
Analistas dizem que a queda da bolsa chinesa levou a uma correção mundial nos preços das ações, que haviam subido muito rápido antes do episódio. Essa teoria é particularmente verdadeira na região da Ásia-Pacífico, onde os mercados, desde a China até a Austrália, vinham desafiando a gravidade nos últimos meses.
ESPECULAÇÃO
O mercado de Xangai, por exemplo, valorizou-se 130% no ano passado depois de anos de estagnação. E subiu 13,6% desde o começo do ano até segunda-feira, quando bateu recorde de negociação. 'Por quatro meses, era uma via rápida de mão única. Havia muita especulação no mercado', diz o economista independente, Andy Xie. 'O mercado é guiado por emoções'.
Apesar do impacto forte e incomum, o solavanco não reflete nenhuma mudança nas tendências dos negócios nem uma inesperada revisão na economia chinesa. Enquanto o episódio traz preocupações a respeito da economia americana, a maioria dos especialistas acredita que o crescimento da China vai continuar a um ritmo de 10% ao ano.
O mercado de ações chinês funciona muito mais para empresas estatais como Baoshan Iron & Steel e China Life Insurance, que para os vibrantes setores privados. Esse é um indicador econômico pobre. O preço das ações tem pouco a ver com os fundamentos corporativos, segundo os analistas.
Além disso, a maioria dos mercados principais ainda é fechada para investidores estrangeiros, sem considerar os chamados investidores institucionais de qualidade, orientados a contar com apenas um pequeno porcentual do total de investimentos do mercado.
Os analistas dizem que a última correção nos preços era inevitável e bem-vinda pelos reguladores como uma forma de proteger o preço das ações de uma bolha especulativa. 'O mercado poderia cair bem, mas eu acho improvável uma queda em massa daqui para frente', diz Jonathan Anderson, economista da UBS Securities Asia.
Enquanto isso, os investidores locais parecem desconcertados. A autoridade de fiscalização do mercado chinês informou 188.876 novas contas abertas na terça-feira. Essa febre de investimento, na ausência de nenhuma outra boa opção, é que trouxe novos investidores para o mercado no ano passado.
Parte da escalada das ações em 2006 é resultado do esforço das autoridades para conter especulação no mercado de imóveis. Como o governo apertou o controle e elevou as taxas no mercado imobiliário, investidores voltaram ao mercado de ações, esperando retornos maiores que os medíocres 0,7% pagos pelos bancos. 'O desafio é saber como manter a especulação sob controle, enquanto se evita o pânico', diz Anderson.
A turbulência foi um alerta aos inexperientes investidores chineses: o mercado de ações envolve riscos. Mesmo os mais experientes sentiram o drama. 'A fundação do mercado ainda não está firme', disse o primeiro-ministro chinês, Wen Jiabao, em artigo sobre reforma financeira. 'Há muitos problemas a serem resolvidos.'