Título: EUA x AL: transtorno do déficit de atenção
Autor: Lowenthal, Abraham F.
Fonte: O Estado de São Paulo, 10/03/2007, Espaço Aberto, p. A2
O senador Joseph Biden, que preside o Comitê de Relações Exteriores do Senado e lançou sua pré-candidatura à Presidência dos EUA, declarou recentemente que a América Latina (AL) vem sendo ¿praticamente ignorada¿ pela administração do presidente George W. Bush e que o Congresso, sob o comando do Partido Democrata, ¿prestará muito mais atenção¿ à região.
Não foi primeira vez que um influente líder político americano prometeu que Washington daria mais atenção à AL e ao Caribe. Ao contrário, esse voto é constantemente repetido, a sério, tanto pelos partidos como por presidentes e líderes do Congresso, em virtualmente cada nova administração e muitas vezes nas eleições de meio de mandato. Latino-americanistas experientes - quer atuem em empresas, na mídia, quer sejam profissionais liberais ou acadêmicos - freqüentemente lideram o coro da queixa de que a AL não está recebendo atenção suficiente dos EUA e acolhem as renovadas declarações de interesse com entusiasmo formal.
A verdade nua e crua, porém, é que os EUA não prestarão mais atenção à AL, independentemente de quem seja o presidente e de que partido controle o Congresso. Uma superpotência com interesses e comprometimentos no mundo inteiro tem tantas questões e relações a administrar que não se pode esperar que os mentores da política dediquem muito tempo às relações com o Hemisfério Ocidental. Não é apenas o imbróglio no Iraque, ou o 11 de Setembro antes disso, que ¿desvia¿ a atenção de Washington. Questões vitais em outros lugares quase sempre irão tomar o tempo que autoridades do alto escalão do governo poderiam devotar às questões usualmente rotineiras que surgem da AL e do Caribe.
Está na hora de reconhecer que os EUA não ¿se preocupam¿ muito com a AL como um todo e que é improvável que o façam, a não ser que ocorra uma iminente ameaça à segurança na região. Não que não haja preocupação com a AL, mas é que poucos nos EUA estão convencidos dos argumentos sobre a suposta importância geral da região. Eles estão preocupados é com países específicos e/ou questões particulares, que variam de investimentos a direitos humanos, passando por comércio e imigração, narcóticos, saúde pública, combate ao terrorismo e meio ambiente - mas não são profundamente afetados pela trajetória econômica, social e política da região. Até mesmo imigrantes hispânicos e seus descendentes estão muito mais concentrados no seu país de origem do que na região como um todo.
Se, finalmente reconhecermos que o distúrbio de déficit de atenção dos EUA para com a AL é crônico, e não uma situação passageira, talvez estejamos mais bem preparados para nos concentrarmos em melhorar a qualidade da restrita atenção que a AL pode esperar.
A seguir, sete sugestões para melhorar a qualidade da atenção dedicada à América Latina e à região caribenha. Dividir de forma coerente a AL em suas sub-regiões distintas. Os países latino-americanos e caribenhos são muito diferentes entre si em termos do grau em que comprometeram sua economia com a concorrência internacional, da presença de grandes populações nativas mal incorporadas à comunidade nacional, da força de seus Estados e instituições políticas e do grau de interdependência demográfica e econômica com os EUA. Nenhuma generalização que se aplique a todos esses países diversos significa muita coisa e nenhuma política faz sentido se não levar em consideração as distinções entre eles.
Deixar para trás a mentalidade da guerra fria, compreendendo que o desafio em muitos países latino-americanos e caribenhos hoje não é coibir o papel do Estado nacional, mas sim fortalecer a capacidade do Estado de responder a profundos desafios nacionais.
Entender que as principais diferenças na AL atual não são entre economias socialista e de mercado, nem entre regime autoritário e governança democrática, mas sim as diferenças entre os países no que diz respeito à receptividade tanto dos mercados como dos governos ao feedback e se e como eles cobrados.
Ir além da retórica da Área de Livre Comércio das Américas e, em vez disso, concentrar-se mais nas perspectivas de uma maior cooperação sub-regional em infra-estrutura e desenvolvimento; no trato das conseqüências adversas não-intencionais até agora do Nafta e de outras regiões de livre comércio; e em encontrar um denominador comum entre os países da AL na Rodada de Doha das negociações do comércio mundial.
Examinar as perspectivas para uma cooperação sub-regional em questões relativas a energia, meio ambiente, saúde pública, narcotráfico, respostas emergenciais a calamidades naturais e outros problemas concretos que significam muito mais atualmente do que uma retórica pan-americana.
Concentrar-se no que os países latino-americanos e caribenhos podem fazer para evitar ser apanhados em armadilhas num mundo onde nem sua tecnologia nem seus custos de mão-de-obra são competitivos. Reconhecer que o capitalismo chinês pode ameaçar a AL muito mais que o comunismo soviético jamais fez, mas isso também pode proporcionar oportunidades se a América Latina conseguir erguer-se à altura dos desafios da competitividade.
Compreender que uma posição e um tom de respeito pela diversidade e interesse em conquistar a cooperação da região servirá muito melhor aos interesses dos EUA do que voltar ao estilo de soberba e sermões.
Internalizar essas sete recomendações indubitavelmente fará mais para melhorar as relações EUA-América Latina que as promessas vazias de ¿mais atenção¿. A América Latina estaria indo muito melhor se a política dos EUA fosse baseada mais numa avaliação diferenciada da complexidade da região do que em repetidas proclamações da sua importância.