Título: Poucas decisões, muita intimidade
Autor:
Fonte: O Estado de São Paulo, 10/03/2007, Nacional, p. A4
A passagem do presidente George W. Bush por São Paulo, que durou pouco mais de 22 horas, não chegou a marcar a ¿renovação¿ das relações Brasil-Estados Unidos nem a expor um grau maior de ¿intimidade¿ entre os dois países, como anunciara antes o chanceler Celso Amorim. Mas deixou claro que o contato entre os presidentes Luiz Inácio Lula da Silva e George W. Bush tornou-se mais fluído e carregado de informalidade.
O resultado dessa afinidade pessoal só deverá ser percebido a partir de 31 de março, quando Lula desembarcará nos Estados Unidos para encontro oficial com Bush na residência de campo do presidente americano, em Camp David.
Lula e Bush conseguiram extrair, do encontro de ontem, o preanunciado acordo de cooperação na área de biocombustíveis. Entretanto, só o tempo poderá revelar se essa iniciativa vai se transformar, de fato, em uma parceria estratégica na área de energia e trazer os benefícios, para o Brasil, da conversão do etanol em uma commodity e da abertura de mercados.
O que ficou definitivamente claro, para governo e produtores brasileiros, é que a idéia de rediscutir a tarifa de importação do produto brasileiro pode ser esquecida: não há como mudar a lei americana a respeito, que só perde validade em 2009.
Bush deixou o Brasil, rumo ao Uruguai, sem avançar nenhum passo além do documento firmado na manhã de ontem pela secretária de Estado, Condoleezza Rice, e pelo chanceler Amorim.
O encontro de São Paulo igualmente remarcou diferenças de pontos de vista de Lula e de Bush sobre os rumos da América Latina e o conceito de ¿ajuda¿ dos Estados Unidos aos países em desenvolvimento da região. Com o cuidado de não tocarem publicamente nas declarações e ações impulsivas do presidente Hugo Chávez, da Venezuela, Lula e Bush dispararam seus recados. ¿Respeitamos as opções políticas e econômicas de cada país¿, avisou à tarde o presidente brasileiro, na entrevista à imprensa.
De seu lado, Bush deixou claro que os investimentos americanos virão para os países da região regidos pela transparência política e pelo respeito aos direitos humanos e à liberdade.
Primeira escala de seu roteiro pela América Latina - que inclui o Uruguai, a Colômbia, a Guatemala e o México -, a passagem por São Paulo indicou que Bush dispõe de pouco poder para responder às sérias demandas da região. Se em São Paulo não pôde tocar na abertura do mercado americano de etanol nem indicar seu compromisso de cortar mais os subsídios agrícolas para destravar a Rodada Doha, tampouco poderá fazer bonito nos demais países que visitará - os mesmos onde as manifestações contrárias à sua presença devem tornar-se mais barulhentas.
Em Montevidéu, Bush não terá condições de dar um passo além do Tratado de Facilitação de Comércio e Investimento (Tifa), que firmará hoje com o presidente Tabaré Vázquez, e anunciar sua disposição para as negociações de um Tratado de Livre Comércio (TLC), como pleiteia uma parte do governo uruguaio. Na Colômbia, não terá condições de comprometer-se com a aprovação, pelo Congresso americano, do TLC firmado no ano passado. No México, tampouco terá margem para tratar sobre a Lei de Imigrações e a construção do muro na divisa dos dois países, dado que ambos os temas estão nas mãos do mesmo Congresso, de maioria democrata.
EM MONTEVIDÉU Em sua chegada a Montevidéu, no início da noite, Bush foi recebido pelo chanceler uruguaio, Reinaldo Gargano - um dos que mais se opõem a aprofundar acordos com os EUA, com um eventual tratado de livre comércio. Bush recebeu homenagens militares e seguiu com a mulher, Laura, e a comitiva para um hotel no centro da capital, onde sua comitiva tomou 262 quartos.
Hoje de manhã, ele tem reunião de trabalho com o presidente Tabaré Vásquez na estância de Colônia, a cerca de 200 quilômetros da capital. O caminho será percorrido de helicóptero - o que poupará Bush, novamente, dos protestos, que ontem tomaram a capital e os arredores de Colônia.