Título: Lula fala em democracia e fecha porta para ataque a Chávez
Autor: Marin, Denise Chrispim e Manzano Filho, Gabriel
Fonte: O Estado de São Paulo, 10/03/2007, Nacional, p. A16
O presidente venezuelano Hugo Chávez não estava na sala, seu nome foi mencionado uma única vez por um jornalista, mas sua presença era evidente, um tanto pesada, do começo ao fim do encontro dos presidentes Luiz Inácio Lula da Silva e George W. Bush com a imprensa, no Hilton Hotel.
Coube a Lula introduzi-lo, ao afirmar que ¿as ditaduras que infelicitaram a região são uma dolorosa lembrança do passado¿ e hoje todos os governos ¿são democraticamente eleitos¿. E ele trancou de vez a porta dos ataques a Chávez, ao dizer pouco depois, nas barbas do visitante: ¿Respeitamos as opções políticas e econômicas de cada país.¿
Escolado em provocações em público e empenhado em exibir simpatia - afinal foi para isso que viajou -, Bush não mencionou uma única vez o nome de Chávez: sua estratégia foi discorrer sobre um tema parecido - a acusação de que seu governo esqueceu a América Latina. ¿Não estou de acordo com essa tese¿, rebateu ele convicto quando uma jornalista o cobrou. ¿Tanto que durante meu governo a ajuda à região dobrou, de US$ 800 milhões para US$ 1,6 bilhão¿, afirmou.
Já que o assunto era ajudar os pobres, Lula trouxe a África para a conversa. ¿Penso que o Brasil e os Estados Unidos poderiam juntos construir alguns projetos para os países da África¿, arriscou ele, ¿para que não vejam os países mais ricos como exploradores, mas também como amigos¿. A resposta de Bush, que falou de improviso o tempo todo (Lula só improvisou no final), foi protocolar: ¿O presidente falou em África, eu também me preocupo. Nossos ministros vão conversar sobre isso, vão falar de possíveis joint-ventures.¿
Outro lance desse jogo de indiretas e respostas ocorreu quando Lula falou em integração: ¿É o melhor caminho, que promove o desenvolvimento¿. Na sua fala, que veio depois, Bush deu su\a receita: ¿Ter uma vizinhança próspera e em paz é de interesse dos EUA¿.
Sem novos argumentos a apresentar, o presidente americano repetiu, em defesa da modesta ajuda financeira que anunciou há três dias - em torno de US$ 1,6 bilhão - que é preciso que se acrescente a ela outras formas de auxílio, mostradas pelas realidades sociais e econômicas dos países. ¿A minha viagem serve para lembrar (...) que há muitos laços sólidos entre nossos países. Há muitas remessas de dinheiro dos Estados Unidos para a América Latina, porque há muitas pessoas que trabalham lá e mandam dinheiro para cá para sustentar suas famílias.¿
E completou com uma queixa: ¿Não acho que reconhecem sempre o mérito dos Estados Unidos de querer melhorar a vida dessa gente¿.
Em outro momento, quando se mencionou a pobreza de muitas populações da região, lembrou que, na semana que vem, ele estará na Guatemala. ¿Lá, vou sair da capital e vou ver militares americanos construindo centros de saúde. Os EUA mandam seus cidadãos para atender às necessidades agudas dessas pessoas.¿
Um pouco ressabiado, Bush disse que muita gente não se dá conta do tamanho da ajuda que seu país destina ao mundo latino. ¿É muito fácil descontar na política externa americana. Mas pensem nos milhões de pessoas que vivem lá e provêm dessas regiões.¿
E admitiu que ¿muitos vivem de forma ilegal, outros de forma ilegal¿, e que ele, favorável a um plano de imigração, vai apresentar ao Congresso americano, em breve, uma reforma da lei sobre o assunto.