Título: Três sem-terra são baleados no PR
Autor: Fadel, Evandro
Fonte: O Estado de São Paulo, 10/03/2007, Nacional, p. A28
Três integrantes do Movimento dos Sem-Terra (MST) ficaram feridos na madrugada de ontem, quando um grupo de pessoas armadas invadiu e atirou contra o acampamento que montaram dentro da Fazenda Videira, em Guairaçá, a cerca de 510 quilômetros de Curitiba, no noroeste do Paraná. A Polícia Militar conseguiu prender 10 pessoas acusadas de serem os pistoleiros. Elas disseram que foram contratadas em Dourados, em Mato Grosso do Sul, mas se negaram a dizer quem foi o responsável pela vinda até o noroeste paranaense.
A fazenda, que está em nome do espólio de Alwin Volrer, já tinha interdito proibitório desde meados do ano passado, mas acabou invadida por cerca de 40 famílias do Movimento dos Agricultores Sem-Terra (Mast) - uma dissidência do MST - em janeiro deste ano, depois que o governo federal declarou-a como de interesse para reforma agrária. O advogado Pedro Pavone contestou a análise de produtividade feita pelo Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) e a desapropriação virou disputa judicial.
A pedido do Incra, os integrantes do Mast saíram da fazenda e ficaram em frente à porteira. Mas, na última terça-feira, um grupo com aproximadamente 300 membros do MST entrou em confronto com os antigos ocupantes, forçou passagem e conseguiu entrar na propriedade, com o ¿objetivo de agilizar o processo de reforma agrária¿, segundo a justificativa dos líderes. Um integrante do Mast e um segurança da fazenda foram feridos e acusaram os integrantes do MST de estarem armados.
Na madrugada de ontem, foram os integrantes do MST que se surpreenderam com tiros do lado de fora do barracão de tijolos em que estavam alojados. Os tiros furaram os tijolos e atingiram três pessoas. Elas foram atendidas no hospital e liberadas em seguida. A Polícia Militar foi chamada e conseguiu fazer um cerco, prendendo 10 pessoas e apreendendo três carros.
Segundo o major Antonio Olímpio de Lima, o líder do grupo é Manuel Leal de Araújo, que disse que só falaria em juízo. Os outros nove disseram que foram contratados por Araújo.
Ainda de acordo com o major Lima, apenas uma arma tinha sido apreendida na tarde de ontem, mas os policiais estavam espalhados nas plantações de cana-de-açúcar para procurar outras. No local do acampamento, foram encontrados estojos de balas de vários calibres. ¿Foram dados muitos tiros¿, afirmou. Segundo ele, como o MST permanecia dentro da fazenda e o Mast estava do lado de fora, o clima não estava amistoso.
O advogado Pedro Pavone disse que, ao invadir a fazenda, na terça-feira, o MST colocou fogo no canavial, queimando 400 hectares, o que acarretou prejuízo de cerca de R$ 2,5 milhões. Os outros 400 hectares não foram queimados porque bombeiros de uma usina de álcool das proximidades foram acionados.
O novo pedido de reintegração de posse, ajuizado ainda na terça-feira, foi concedido na quinta-feira, por isso Pavone disse ter estranhado o que aconteceu na madrugada. ¿Eu soube que teve problema entre os dois grupos que estão por lá e penso ainda que é uma briga entre eles¿, afirmou.
SALA DE AULA
Em Mato Grosso do Sul, sem-terra promoveram um protesto diferente. Integrantes do MST montaram uma sala de aula - com lousa e carteiras escolares - no meio da BR-262, em Campo Grande. A rodovia une os extremos leste e norte do Estado.
Os manifestantes reivindicam a instalação de uma escola de ensino fundamental no acampamento - na entrada da cidade - onde vivem 213 famílias há quase três anos.
O protesto reuniu cerca de mil manifestantes - entre eles 90 crianças que estão sem estudar. Três horas depois de iniciada, a manifestação foi interrompida com a chegada do batalhão de choque da Companhia de Gerenciamento de Crise e Operações Especiais. Escudos, cassetetes e armas assustaram os manifestantes, que se dispersaram sem reação.