Título: Vaticano condena jesuíta ao silêncio
Autor: Mayrink, José Maria
Fonte: O Estado de São Paulo, 15/03/2007, Vida&, p. A21
Uma notificação do Vaticano, assinada pela Congregação para a Doutrina da Fé com a aprovação do papa Bento XVI, condenou ontem seis pontos do pensamento do padre jesuíta Jon Sobrino, um dos principais representantes da Teologia da Libertação na América Latina.
Embora o texto não deixe explícito que Sobrino foi punido - medida que viria num segundo momento, provavelmente hoje ou nos próximos dias - a notificação significa condenação ao silêncio. O teólogo será proibido de ensinar em instituições católicas e seus livros não terão a aprovação oficial (nihil obstat) da Igreja.
O arcebispo de San Salvador, d. Fernando Sáenz Lacalle, adiantou em entrevista, no domingo, que Sobrino não poderá dar aulas em nenhum centro católico, ¿até que revise as suas conclusões¿ sobre os itens censurados por Roma.
São seis as proposições que a Congregação para a Doutrina da Fé condenou, ¿dadas as inexatidões e erros nelas encontrados¿: 1) os pressupostos metodológicos enunciados pelo autor, nos quais ele fundamenta a sua reflexão teológica; 2) a divindade de Jesus Cristo; 3) a encarnação do Filho de Deus; 4) a relação entre Jesus Cristo e o Reino de Deus; 5) a autoconsciência de Jesus Cristo (de que era Deus e homem) e 6) o valor salvífico da morte de Jesus.
O documento do Vaticano rebate, um a um, todos esses itens, depois de ter analisado particularmente dois livros de Sobrino - Jesucristo liberador. Lectura histórico-teológico de Jesús de Nazareth (Jesucristo) e La Fe en Jesucristo. Ensayo desde las víctimas (La fe).
Segundo a Congregação para a Doutrina da Fé, o teólogo jesuíta abrandou parcialmente alguns pontos de seu pensamento, mas sua resposta não satisfez, já que, na substância, permaneciam os erros que justificam a notificação. Sobrino se defendeu, por escrito, em março de 2005, depois de ter sido informado, em julho de 2004, de que uma série de proposições encontradas em seus livros eram ¿errôneas ou perigosas¿.
O Vaticano considera que o teólogo não deixa clara a fé de que Jesus Cristo é verdadeiramente filho de Deus feito homem e reafirma que, ao contrário do que ensina Sobrino, ¿o lugar eclesial da cristologia não pode ser a Igreja dos pobres, mas a fé apostólica, transmitida pela Igreja a todas as gerações.¿
Após lembrar que ¿a preocupação com os mais simples e mais pobres foi, desde o início, um dos traços característicos da missão da Igreja¿, a notificação adverte que ¿todos o homens (e não só os pobres) têm direito de conhecer o Senhor Jesus.¿
Essa advertência significa que a opção preferencial pelos pobres, que Sobrino professa, não é exclusiva, como o papa João Paulo II afirmou em 1979, na Conferência Geral do Episcopado da América Latina, em Puebla (México), ao alertar para os riscos de desvios doutrinais da Teologia da Libertação. A condenação de Sobrino às vésperas da Conferência de Aparecida, em maio, quando teólogos farão um seminário paralelo à reunião, pode ser um recado aos bispos latino-americanos.
Espanhol da cidade basca de Bilbao, Sobrino, de 68 anos, vive desde 1958 em El Salvador, onde ensina na Universidade Centro-Americana. Ele é o 12.º teólogo da libertação punido pelo Vaticano desde 1979. Entre os outros, destacam-se o padre suíço Hans Küng e o ex-frade brasileiro Leonardo Boff.