Título: Projeto chavista para educação tira o sono dos pais venezuelanos
Autor: Costas, Ruth
Fonte: O Estado de São Paulo, 18/03/2007, Internacional, p. A16
Se no Brasil hoje se discute como melhorar a qualidade do ensino público, na Venezuela, Hugo Chávez fez esse debate retroceder algumas décadas. O grande pesadelo da classe média venezuelana são os projetos do presidente para transformar o sistema de educação do país num instrumento de doutrinamento ideológico.
¿Desde o início do ano, Chávez ameaça usar as escolas e universidades para impor o `socialismo do século 21¿ e os venezuelanos estão se mobilizando para evitar isso¿, disse ao Estado, por telefone, o presidente da Federação de Professores Venezuelanos, Orlando Alzuru, hoje envolvido numa campanha contra um polêmico projeto de lei para a educação que a Assembléia Nacional - formada por chavistas - deve aprovar até o fim do ano.
Durante a sua terceira cerimônia de posse, em janeiro, Chávez anunciou que a ¿educação popular¿ seria um dos cinco ¿motores¿ de sua revolução socialista. A meta do governo, explicou ele na época, seria usar o sistema educacional para formar ¿o novo homem¿, comprometido com os valores revolucionários. Desde então, muitos educadores e pais venezuelanos não dormiram mais tranqüilos. Além de pressionar pela aprovação da nova legislação, Chávez colocou seu irmão mais velho, Adán Chávez, na pasta de Educação e Esportes (que cuida do ensino básico), criou um conselho presidencial para supervisionar a difusão da doutrina socialista no sistema educacional e ameaçou estatizar a Universidade Fermín Toro, de Barquisimeto (a 250 quilômetros de Caracas), para acabar com os protestos de estudantes e professores da instituição. Na sexta-feira, um de seus maiores aliados no setor, o coordenador da Associação de Educadores Bolivarianos, Orlando Pérez, chegou a sugerir que as escolas privadas fossem proibidas na nova lei, alegando que a responsabilidade pela educação deveria ser toda do Estado.
¿A educação é uma das áreas em que o radicalismo do presidente mais causa temor e revolta porque ela interfere diretamente no dia-a-dia das pessoas¿, disse ao Estado o professor Luken Quintana, especialista em políticas educacionais da Universidade Central da Venezuela.
Ex-embaixador em Cuba, Adán é considerado ainda mais radical que o presidente. Em janeiro, ele assumiu a sua pasta prometendo ¿acabar com o ensino colonial capitalista¿ e ¿eliminar o individualismo das escolas¿. Uma de suas primeiras medidas foi lançar, no mês passado, a campanha ¿Moral e Luzes¿, destinada, nas suas palavras, a ¿consolidar um sistema educativo bolivariano e levá-lo para todos os cantos do país¿.
Na primeira etapa do projeto, finalizada há 15 dias, o governo diz ter conseguido recrutar e treinar 10.389 voluntários que serão encarregados de visitar instituições públicas, associações e escolas nos rincões mais distantes da Venezuela para difundir e zelar pelo ¿socialismo do século 21¿. Não há como ter certeza sobre o número desses voluntários - chamados ¿brigadistas¿ - porque os órgãos oficiais costumam exagerar nas dimensões dos programas do governo, mas só na cerimônia em que o ¿Moral e Luzes¿ foi lançado havia pelo menos 480 jovens. A meta oficial é recrutar 100 mil brigadistas em três meses.
¿Esses voluntários recebem apenas algumas horas de aulas teóricas e treinamento¿, diz Quintana. ¿Como sempre no governo Chávez, trata-se de um projeto com pouco planejamento e muita improvisação, mas não duvido que se queira transformar esses jovens em inspetores, encarregados de vigiar alguns estratos da sociedade para garantir o cumprimento da doutrina chavista¿, completa.
A nova Lei Orgânica de Educação também é um poço de polêmicas. ¿Com a nova legislação o governo quer obrigar todas as escolas a adotarem o chamado `sistema de educação bolivariano¿, que seria o oposto do `individualismo e da educação burguesa¿¿, explica Octávio de Lamo, presidente da Câmara Venezuelana de Educação Privada. ¿O projeto prevê que, além de definir o currículo, o Estado poderá exigir de todos os professores um certificado de `idoneidade¿ - um conceito vago, que pode acobertar critérios políticos.¿ Estariam em risco, em última instância, a diversidade e o poder de escolha nas escolas e universidades venezuelanas.
Outros especialistas, como Nacarid Rodríguez, da Faculdade de Educação da Universidade Central da Venezuela, criticam o fato de a lei em nenhum momento especificar que o ingresso nas instituições públicas será feito por concurso.
INSPETORES ITINERANTES
Não é de hoje que alguns setores da sociedade venezuelana denunciam as tentativas do governo de aumentar seu controle sobre o sistema educacional do país. Em 2001, o governo tentou aprovar um decreto que, entre outras medidas, criava a figura do ¿inspetor itinerante¿ - um funcionário indicado diretamente pelo Ministério da Educação para supervisionar todas as instituições de ensino do país, sugerindo a destituição de diretores e coordenadores. Depois de muitos protestos sob o slogan ¿Não se meta¿ o decreto acabou modificado por ordem da Justiça venezuelana.
Em outro episódio polêmico, uma menina de 8 anos foi levada ao Alô, Presidente! (o programa de Chávez no rádio e na TV da Venezuela) no ano passado para demonstrar a eficácia dos programas educacionais bolivarianos. A garota fez um discurso sobre a revolução chavista e a importância da integração latino-americana em que se distinguiam fragmentos do pensamento de Simón Bolívar e frases feitas dos discursos oficiais. Chávez a qualificou de ¿gênio¿, mas muita gente viu nas suas palavras a prova da existência de um sistema de doutrinamento político das crianças.
¿Há uma vertente mais radical do governo Chávez que quer de fato transformar a educação num mecanismo para impor uma única visão de mundo¿, disse ao Estado, por telefone, Mabel Mundó, especialista em educação do Centro de Estudos do Desenvolvimento. Ela diz que é possível que o cerco contra as escolas esteja se fechando agora porque Chávez se sente fortalecido - já que, além de controlar o Legislativo e o Judiciário, venceu as últimas eleições com mais de 60% dos votos. ¿Mas também não descarto a hipótese de o governo estar usando a questão educacional como um artifício para desviar a atenção da população enquanto medidas importantes são aprovadas sem tanto estardalhaço.¿
MEDIDAS PARA EDUCAÇÃO
Lei Orgânica de Educação: com a nova legislação, o governo quer obrigar todas as escolas a adotarem o chamado `sistema de educação bolivariano¿
Campanha Moral e Luzes: destinada, nas palavras do ministro Adán Chávez, a ¿consolidar um sistema educativo bolivariano e levá-lo para todos os cantos do país¿
Brigadistas: voluntários que serão encarregados de visitar instituições públicas, associações e escolas para difundir e zelar pelo `socialismo do século 21¿. A meta é recrutar 100 mil brigadistas em 3 meses
`Missões educacionais¿: projetos nos quais se recebe um salário para estudar. Serão ampliados
Universidade Bolivariana da Venezuela: os planos do governo prevêem criar 800 mil vagas em apenas três anos
FRASES
Adán Chávez Ministro de Educação e Esportes
¿Vamos acabar com o ensino colonial capitalista e eliminar o individualismo das escolas¿
Octávio de Lamo Presidente da Câmara Venezuelana de Educação Privada
¿Com a nova legislação, o governo quer obrigar todas as escolas a adotar o chamado `sistema de educação bolivariano¿, que seria o oposto do individualismo e da educação burguesa. O Estado poderá exigir de todos os professores um `certificado de idoneidade¿, um conceito que pode acobertar critérios políticos¿
Luken Quintana Especialista em políticas educacionais
¿A educação é uma das áreas em que o radicalismo do presidente mais causa temor e revolta, porque interfere no dia-a-dia das pessoas¿