Título: Diploma para todos, mas sem qualidade
Autor: Costas, Ruth
Fonte: O Estado de São Paulo, 18/03/2007, Internacional, p. A17

Algumas das metas anunciadas pelo presidente venezuelano, Hugo Chávez, para a educação não poderiam ser mais louváveis: ensino gratuito e diplomas para todos. O problema é que, na maioria das vezes, faz falta a discussão sobre a qualidade deste ensino. ¿Chávez promete formar, nas universidades bolivarianas, advogados e médicos em cursos de dois e três anos, respectivamente¿, diz o professor Luken Quintana, da Universidade Central da Venezuela. ¿É melhor que esses jovens tenham alguma formação em vez de nenhuma, mas não dá para converter esse ensino precário na base do sistema educacional.¿

Uma das principais iniciativas de Chávez nessa área foi a organização das chamadas ¿missões¿ educacionais, nas quais os venezuelanos recebem um pequeno salário para estudar. Segundo o governo, a Missão Robinson, organizada com a ajuda de profissionais cubanos, ensinou 1,5 milhão de pessoas a ler e escrever entre 2003 e 2005, mas há quem conteste esses números. ¿No final da década de 90, a Unesco divulgou que na Venezuela havia 500 mil analfabetos. Poucos anos mais tarde, o governo anunciou ter ensinado a ler e escrever um número de pessoas três vezes maior - isso não pode estar certo¿, afirma o presidente da Câmara Venezuelana de Educação Privada, Octávio de Lamo. ¿Num país onde grande parte da população vive em situação de pobreza extrema, não seria de estranhar que muitas pessoas alfabetizadas dissessem que não sabem ler para receber os cerca de US$ 80 mensais que o governo oferece a quem participa do programa.¿

Na Missão Rivas, com 512 mil inscritos, pode-se obter diploma de ensino médio com dois anos de estudo, quando em geral são necessários até cinco. Para a educação superior foi criada a Missão Sucre, que segundo dados oficiais teria ampliado o número de municípios onde há ensino de terceiro grau de 60 para 272.

¿Infelizmente, tudo é feito de forma improvisada e apressada e o currículo desses cursos é enxugado sem que haja um planejamento adequado¿, diz Mabel Mundó, especialista em educação do Centro de Estudos do Desenvolvimento.¿Alguns jovens ficam frustrados porque acham que receberão aulas de direito e acabam especialistas em Marx e Lenin - obviamente, sem chance de conseguir empregos em empresas privadas.¿

UNIVERSIDADE BOLIVARIANA

Outra menina dos olhos do presidente é a Universidade Bolivariana da Venezuela (UBV), que já se tornou a maior instituição de ensino superior do país. Instalada em 2003 num antigo edifício da PDVSA (a estatal petrolífera), ela hoje conta com 180 mil estudantes e o plano do governo é chegar a 1 milhão em três anos.

Segundo Chávez e construção dessa rede de ensino paralelo visa a combater o ¿elitismo¿ das universidades e escolas tradicionais. Na UBV, por exemplo, não há vestibular e a única exigência é que o aluno tenha o ensino médio completo. A oposição, porém, acusa o presidente de usar esses programas para garantir apoio nas urnas. ¿Chávez está iludindo milhares de pessoas dando-lhes um diploma sem que elas tenham de fato uma formação adequada¿, diz De Lamo. ¿Daqui a alguns anos teremos um grande problema educacional, com profissionais pouco preparados e revoltados por não conseguir um lugar no mercado.¿

Enquanto Chávez vende sonhos, até as estatísticas oficiais puxam o presidente para a realidade. De acordo com dados do Sistema Nacional de Medição e Avaliação de Aprendizagem relativos a 2003, mas divulgados este ano, os alunos das chamadas escolas bolivarianas - criadas por Chávez em 1999 para oferecer ensino em tempo integral - tiveram, em algumas matérias, desempenhos piores que os de estudantes de escolas rurais, que costumam ter baixo rendimento.

Um levantamento recente do Ministério da Educação também apontou que os índices de repetência e evasão escolar estão regredindo aos níveis de dez anos atrás. Enquanto isso, nas escolas particulares as matrículas aumentaram 4,5% este ano. O motivo? ¿Nem todo mundo aceita que Chávez se meta na educação de seu filho¿, explica De Lamo.