Título: EUA ficam sem opção no Iraque
Autor: Mello, Patrícia Campos
Fonte: O Estado de São Paulo, 18/03/2007, Internacional, p. A18
Depois de quatro anos, 3.200 soldados americanos mortos e mais de US$ 450 bilhões perdidos, o presidente George W. Bush aposta tudo em sua última estratégia para a guerra no Iraque - ¿a escalada¿, com o envio adicional de 21.500 soldados para tentar controlar o conflito sectário entre xiitas e sunitas. Bush não tem alternativa. Se este último esforço fracassar, o Iraque deve mergulhar num cenário de limpeza étnica semelhante ao dos Bálcãs, nos anos 90.
¿Os EUA já perderam essa guerra; nossa presença está exacerbando as tensões étnicas e servindo como instrumento de recrutamento para terroristas¿, disse ao Estado a americana Natalie Goldring, professora do Centro de Estudos de Paz e Segurança da Universidade Georgetown. ¿Infelizmente, não há fórmula mágica: precisamos nos comprometer com uma retirada organizada, enquanto ajudamos a reconstruir o que sobrou do Iraque.¿
Na terça-feira, quando a invasão das tropas americanas em 2003 completa mais um aniversário, a Casa Branca terá muito pouco a comemorar. O governo Bush vive as conseqüências de uma guerra que começou pelos motivos errados (no final das contas, não existiam armas de destruição em massa no Iraque) e com a estratégia equivocada - os EUA não enviaram o número suficiente de soldados. De quebra, sua estratégia fortaleceu o imprevisível e nuclearizado Irã ao eliminar os principais adversários de Teerã - Saddam Hussein e o Taleban.
Diante do fiasco no Iraque, os americanos debatem duas possibilidades para manobrar uma saída da guerra que seja o menos desonrosa possível. Os democratas e vários analistas pregam a retirada das tropas porque não há nada mais que os marines possam fazer para apaziguar o Iraque. A Casa Branca e a maioria dos republicanos acreditam que a ¿escalada¿ começa a surtir efeitos. Por isso, uma retirada prematura só daria munição aos inimigos. Para eles, é necessário ter paciência.
Há outras propostas intermediárias. O próprio comandante militar americano, general David Petraeus, admitiu na semana passada que apenas a força militar não será capaz de estabilizar o Iraque. Segundo ele, isso só será posssível com uma ampla negociação política.
Bush quer deixar o estigma da derrota para o próximo presidente - então, deve ¿manter o rumo¿ até o fim do mandato, em vez de propor uma retirada e ficar com o ônus do fracasso. Mas ¿manter o rumo¿, além de custar mais vidas americanas e iraquianas, pode ter conseqüências ainda mais graves.
¿Precisamos adotar uma estratégia para evitar que o conflito se espalhe¿, disse ao Estado Martin Indyk, diretor do Centro de Estudos de Oriente Médio da Brookings Institution. Segundo Indyk, as tropas americanas deveriam se mover para as fronteiras do Iraque, para deter a interferência de países vizinhos, e oferecer ajuda humanitária a milhares de iraquianos vítimas de ¿limpeza étnica¿.
Para Zbigniew Brzezinski, ex-consultor de Segurança Nacional do presidente Jimmy Carter e respeitado especialista em política externa, o restante do mandato de Bush deve ser inteiramente dedicado a evitar que a guerra no Iraque se regionalize e envolva Irã, Afeganistão e Paquistão. ¿Se isso acontecer, será o maior fracasso da política externa dos EUA em décadas¿, disse Brzezinski.