Título: Estimativas convenientes são divulgadas como fatos
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Fonte: O Estado de São Paulo, 20/03/2007, Internacional, p. A11
A guerra dos EUA no Iraque entrou ontem no quinto ano. O aniversário e a morte de 3.197 militares americanos - segundo a contagem do Pentágono até sexta-feira - estão entre as poucas certezas numéricas de uma guerra caracterizada desde o início pela confusão e pelo uso inadequado de dados cruciais.
Na bruma da guerra de contra-insurgência moderna, as estatísticas substituíram o território conquistado como medida de sucesso. Quando ainda era secretário da Defesa, Donald Rumsfeld rejeitava perguntas sobre a quantidade de soldados iraquianos prontos para o combate afirmando que números eram apenas números e nos ¿desviavam¿ da verdade.
Agora, o governo Bush divulga números continuamente. Bem antes da invasão de 19 de março de 2003 - 20 de março no Iraque - o governo dos EUA já quantificava o conflito, avisando que Saddam Hussein deixara de declarar o destino de ¿29.984¿ munições químicas e ¿dezenas de milhares de colheres de chá¿ de antraz. ¿Quase duas dúzias¿ de extremistas da Al-Qaeda operavam em Bagdá.
Desde o início da guerra, o Congresso e o público exigem prestações de contas detalhadas - muitas vezes sobre pontos difíceis ou impossíveis de quantificar. Em algumas ocasiões, críticos do governo usaram dados de modo incorreto para mostrar que a situação piorava.
As contagens semanais de produção de petróleo, fornecimento de eletricidade e projetos de construção concluídos ficaram invariavelmente abaixo das metas declaradas.
Múltiplas contagens regulares e especiais dificultaram o cálculo do gasto total com a guerra. Os números de presos oscilaram de acordo com o objetivo das autoridades - exibir trunfos ou esconder prisioneiros secretos. E estimativas convenientes chegaram a ser divulgadas como fatos.
¿Em fevereiro, as forças da coalizão e do Iraque realizaram pouco mais de 200 operações contra objetivos da Al-Qaeda, matando mais de 100 terroristas e capturando mais de 400 terroristas¿, afirmou o general William Caldwell, porta-voz das tropas dos EUA no Iraque.
Pouco depois, na mesma entrevista, Caldwell disse ter certeza sobre os 100 mortos, mas acrescentou que os 400 capturados passariam por uma ¿triagem¿ para determinar ¿se eles eram realmente ligados aos terroristas (...) ou eram apenas observadores inocentes¿.
Duas categorias de dados - sobre as mortes de insurgentes e civis iraquianos e sobre o treinamento e a prontidão das forças de segurança do Iraque - ilustram como os números podem ser flexíveis.
As baixas civis mostram-se mais difíceis de acompanhar. Antes da guerra, a ONU previu que o saldo poderia chegar a 500 mil; assim que os combates começaram, críticos anunciaram milhares de mortes de civis. No entanto, em seu discurso de ¿Missão Cumprida¿ em 1º de maio de 2003 - quando declarou ¿o fim da fase dos grandes combates no Iraque¿ -, Bush afirmou que o uso de armas de precisão havia praticamente evitado a morte de não-combatentes.
Em 12 de dezembro de 2005, Bush ofereceu seu primeiro e único saldo de mortos iraquianos: ¿30 mil, mais ou menos¿, sem distinção entre inimigos e não-combatentes. O grupo independente Iraq Body County, baseado em Londres, ofereceu um número similar só para civis - entre 34.516 e 38.661 iraquianos mortos até o início de 2006.
NÚMEROS
34.516 civis iraquianos, pelo menos, morreram no conflito até o início de 2006, segundo estimativa do grupo independente Iraq Body County, de Londres. O número máximo de não-combatentes mortos no Iraque estimado pela mesma organização chega a 38.661, até o começo do ano.
3.197 militares dos EUA, morreram no Iraque até a última sexta-feira, segundo números do Pentágono.
29.284 munições químicas estariam sob o poder de Saddam Hussein, segundo declaração de Bush antes da invasão. O suposto arsenal químico nunca foi encontrado.