Título: Collor chora ao falar de impeachment
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Fonte: O Estado de São Paulo, 16/03/2007, Nacional, p. A7
Quinze anos depois de ser afastado da Presidência sob a acusação de envolvimento em corrupção, o ex-presidente Fernando Collor (PTB-AL) apresentou ontem sua versão do episódio no mesmo local em que seu impeachment foi definido, o Congresso. Num discurso de quatro horas acompanhado com atenção por cerca de 40 colegas, o agora senador chegou a chorar na tribuna. Disse que seu julgamento político foi um farsa e afirmou ter sido vítima de ¿vingança política e desforra particular¿. Para completar, ganhou mais palavras de apoio do que de contestação de parlamentares de todas as correntes políticas.
¿Não vim lastimar o passado. Vim para sepultar de vez essa dolorosa lembrança¿, disse Collor. ¿A crônica do processo contra mim intentada foi uma litania de abusos e preconceitos, uma sucessão de ultrajes e um acúmulo de violação das mais comezinhas normas legais. Uma sucessão, enfim, de afrontas ao Estado de Direito Democrático.¿ Collor afirmou que os responsáveis pelo impeachment patrocinaram, durante os trabalhos da CPI do Esquema PC e de seu julgamento político, atos de ¿arbítrio¿, ¿falsidade¿ e ¿prepotência¿.
O ex-presidente disse que, tão logo seu irmão Pedro denunciou a existência de um esquema ilegal em seu governo, determinou ¿imediata apuração¿ pela Polícia Federal. ¿Não esperei suas repercussões, não aguardei que me cobrassem providências.¿
O primeiro senador se manifestar durante o pronunciamento foi o líder do PSDB, Arthur Virgílio (AM). O tucano disse que o ex-presidente foi anistiado pela Justiça e pelo voto popular e avaliou que ele ¿pagou um preço muito alto por seus erros, num país onde ninguém paga¿.
Tasso Jereissati (CE), presidente do PSDB, endossou a tese. ¿Denúncias que pareceram graves à época foram vistas com absoluto rigor, que, inclusive, atropelou formalidades legais¿, disse. Tasso afirmou que hoje artistas e intelectuais são tolerantes em relação a acusações de corrupção no governo Lula.
O petista Aloizio Mercadante (SP), membro atuante na CPI, defendeu os trabalhos da comissão, mas admitiu que ¿excessos seguramente ocorreram¿.
Uma liturgia especial envolveu o discurso de Collor, que foi autorizado pela direção do Senado a falar além dos 20 minutos habituais. O presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), que foi líder de Collor na Câmara, pediu-lhe que atrasasse o início de sua fala para que pudesse presidir a sessão. Na platéia, estava o deputado cassado Roberto Jefferson, que comandava a tropa de choque do ex-presidente na Câmara.
FRASES
Fernando Collor Senador (PTB-AL)
¿Não vim para lastimar o passado. Vim para sepultar de vez essa dolorosa lembrança¿
¿A crônica do processo contra mim intentada foi uma litania de abusos e preconceitos, uma sucessão de ultrajes e um acúmulo de violação das mais comezinhas normas legais.
Uma sucessão, enfim, de afrontas ao Estado de Direito Democrático¿