Título: Al-Qaeda não se recuperou de prisão
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Fonte: O Estado de São Paulo, 16/03/2007, Internacional, p. A12

Dezenas de interrogatórios e investigações ainda terão de ser realizados para que se descubra a real participação de Khalid Sheikh Mohammed nos vários atentados terroristas que ele afirmou ter cometido. Mas especialistas consideram o paquistanês um dos mais importantes militantes islâmicos do mundo e afirmam que a Al-Qaeda ainda não se recuperou de sua prisão, há quatro anos.

'É possível que haja um certo exagero em relação aos ataques pelos quais ele diz ser responsável. Mas não há absolutamente nenhuma dúvida de que ele é uma das figuras mais significativa no terrorismo 'jihadista' da última década', afirmou Paul Pillar, ex-analista de inteligência do governo americano para o Oriente Médio e o sul da Ásia.

Apesar de ter se responsabilizado, ainda que parcialmente, por alguns atentados na Europa, como o de 2005 em Londres, a Al-Qaeda não ataca em território americano desde o 11 de Setembro. Isso pode ser um sinal do tamanho do dano que a prisão de Mohammed causou à rede terrorista.

Autoridades dos EUA asseguram que ele tinha um papel crucial no que diz respeito à organização de atentados. Isso porque o paquistanês conhece bem o Ocidente, já que morou em diversos países da Ásia, da Europa e no próprio Estados Unidos, onde, nos anos 80, cursou faculdade de engenharia mecânica na Carolina do Norte. Além disso, ele é fluente em árabe, inglês, urdu e baluchi - um dialeto do Paquistão.

Seus supostos sucessores na época de sua prisão são considerados menos capazes e habilidosos. Entre eles estavam Abu Faraj al-Libi e Abu Hamza Rabia. Libi foi preso em maio de 2005 pelas forças de segurança do Paquistão e, atualmente, está preso em Guantánamo. Ele é acusado de participação nos ataques de 11 de Setembro. Já Rabia morreu numa explosão há dois anos, na região paquistanesa do Waziristão.

'Essas baixas não significam que a Al-Qaeda parou de planejar ataques ou que tenha perdido a capacidade de causar danos. Eles têm. Mas houve uma erosão em sua liderança e capacidade operacional', disse uma autoridade americana, sob condição de anonimato.

Alguns especialistas, porém, relativizam a importância a Mohammed. O ex-agente da CIA Robert Baer disse que nem o paquistanês nem seus ex-subordinados dentro da Al-Qaeda demonstram a precisão e o sigilo de grupos guerrilheiros mais antigos, como o libanês Hezbollah. 'Talvez seja por isso que não fomos atingidos depois do 11 de Setembro', afirmou Baer.

Os serviços de inteligência afirmam que a Al-Qaeda vem tentando se reestabelecer no Paquistão, desde que foi expulsa do Afeganistão durante a invasão americana, em 2001.

LACUNAS

A biografia de Mohammed é cheia de lacunas. Ele nasceu no Kuwait, entre 1964 e 1965, mas seus pais eram do Buquistão, província paquistanesa na fronteira com o Afeganistão. Aos 16 anos, ele entrou para a Irmandade Muçulmana. Após estudar nos EUA, ele foi lutar contra as forças soviéticas no Afeganistão.

Em seguida, ele montou uma empresa de eletrônicos que servia de fachada para ações terroristas, mas que também permitiam que ele viajasse o mundo. Nos anos 90, Mohammed veio até ao Brasil (na região da Tríplice Fronteira). Os EUA afirmam que, desde que foi transferido para Guantánamo, o paquistanês já colaborou com as autoridades, passando algumas informações importantes, como a do 'Plano Bojinka', no qual a Al-Qaeda planejava um ataque a 12 aviões americanos sobre o Pacífico.