Título: 'Eu degolei Pearl', diz terrorista
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Fonte: O Estado de São Paulo, 16/03/2007, Internacional, p. A12
O paquistanês Khalid Sheikh Mohammed, número três na hierarquia da Al-Qaeda e acusado de ser o mentor dos ataques de 11 de Setembro, surpreendeu o mundo ontem ao confessar que estava por trás de outros 30 atentados, alguns dos quais nem mesmo a CIA desconfiava. Entre as inesperadas revelações de Mohammed está o assassinato do jornalista Daniel Pearl, em 2002. 'Com a minha abençoada mão direita, eu decapitei o judeu americano Daniel Pearl', teria dito ele durante interrogatório realizado sábado, mas cuja transcrição foi divulgada apenas ontem.
Pearl era correspondente do Wall Street Journal na Índia e havia sido seqüestrado no Paquistão. Depois de uma semana de cativeiro, teve sua cabeça cortada com um punhal. As imagens chocantes da decapitação foram colocadas na internet.
No depoimento dado na prisão da Base Naval dos EUA de Guantánamo, em Cuba, o terrorista afirmou ser o comandante de operações militares da Al-Qaeda e membro do conselho da organização - submetido apenas ao líder Osama bin Laden e a seu braço direito Ayman al-Zawahiri. Como era esperado, confessou ter planejado os ataques ao World Trade Center. 'Eu fui responsável pela operação do 11 de Setembro, de A a Z', declarou.
Na transcrição do depoimento, liberada anteontem pelo Pentágono, alguns trechos haviam sido omitidos - inclusive o que falava da execução de Pearl. Os militares se justificaram, dizendo que era preciso ganhar tempo para que a família do jornalista fosse notificada. Contudo, a parte em que Mohammed comenta sobre os maus-tratos sofridos na prisão também foi apagada, o que fez as organizações de direitos humanos receberem com desconfiança a confissão.
Mohammed, que havia sido capturado em março de 2003, ficou três anos isolado em uma prisão secreta da CIA. Durante o interrogatório, ele tentou se apresentar como 'combatente inimigo' e comparou suas ações às de outros revolucionários. 'Se os ingleses tivessem capturado George Washington durante a Guerra da Independência, também o teriam considerado combatente inimigo', disse. No depoimento de 26 páginas, o terrorista paquistanês falou em um inglês truncado, pediu ajuda a um tradutor de árabe e lamentou a morte de 'crianças inocentes' nos ataques de 11 de Setembro. Entretanto, disse que as vítimas faziam parte da guerra.
No fim, surpreendeu a todos quando seu advogado começou a ler uma lista de operações das quais o acusado assumia responsabilidade direta. Entre elas estão a explosão de um caminhão-bomba no World Trade Center, em 1993, que matou seis pessoas; e a minivan que levou pelos ares uma discoteca em Bali, na Indonésia, em 2002, matando cerca de 190 pessoas. Mohammed revelou ainda que planejou destruir o Canal do Panamá e o Big Ben, e que tentou matar o papa João Paulo II e os ex-presidentes americanos Bill Clinton e Jimmy Carter. De acordo com ele, uma segunda onda de atentados deveria seguir o 11 de Setembro. Entre os alvos estavam a Sears Towers, de Chicago, e o Empire State, em Nova York.