Título: BC vê risco no cenário externo e indica novo corte de 0,25 no juro
Autor: Freire, Gustavo e Fernandes, Adriana
Fonte: O Estado de São Paulo, 16/03/2007, Economia, p. B4
Mesmo com a projeção de inflação abaixo do centro da meta de 4,5% e a saída do conservador Afonso Bevilaqua da diretoria do Banco Central (BC), o Comitê de Política Monetária (Copom) manteve o comportamento cauteloso e sinalizou ontem que pretende continuar no ritmo de corte de 0,25 ponto porcentual na taxa básica de juros, a Selic.
Na ata da última reunião do Copom, os diretores do BC alertaram que é preciso estar mais ¿vigilante¿ com os riscos do cenário internacional para a economia brasileira depois da volatilidade verificada na Ásia e nos Estados Unidos.
¿O cenário internacional permanece favorável, mas apresenta instabilidade e novas fontes de incerteza¿, diz o texto da ata. Apesar disso, o documento diz que é baixa a probabilidade da crise externa contaminar a economia brasileira, que está hoje ¿mais sólida¿.
Na reunião da semana passada, o Copom reduziu a Selic de 13% para 12,75% ao ano. Mesmo tendo sido uma redução pequena, foi a primeira vez que o Copom cortou os juros em meio a turbulências internacionais.
De acordo com o documento, além das incertezas com a China, o maior temor dos mercados é que o banco central americano (Fed) aumente os juros (hoje em 5,25% ao ano) e afete o câmbio do Brasil.
Na avaliação do Copom, aumentou também a sensibilidade dos mercados a dados que poderiam indicar esfriamento mais forte da economia norte-americana. Essa preocupação cresceu depois que o ex-presidente do Fed Alan Greenspan admitiu a possibilidade de uma recessão nos Estados Unidos.
A preocupação do BC com o comportamento dos mercados globais se justifica porque o dólar barato (sustentado pelo fluxo de comércio e pelo ingresso de investidores em busca de ganhos com os juros mais altos no Brasil) tem ajudado a manter a inflação em baixa. O mercado projeta para este ano IPCA de 3,87%, bem abaixo da meta definida pelo Conselho Monetário Nacional (CMN).
Para o economista da Mauá Investimentos, Caio Megale, a estratégia do Copom é admitir gradualmente uma inflação mais alta. ¿Acho que a estratégia é ir elevando a inflação, que está hoje em torno dos 3%, para algo entre 4% e 4,5% no final de 2008¿, comentou.
Mesmo com a inflação sob controle, o Copom continua manifestando preocupação com os sinais de aquecimento da demanda interna, que poderia pressionar os preços. ¿A expansão do nível de emprego e da renda e o crescimento do crédito continuarão impulsionando a atividade econômica. A esses fatores devem ser acrescidos os efeitos da expansão das transferências governamentais e de outros impulsos fiscais¿, diz a ata, numa referência ao crescimento dos gastos públicos a partir do ano passado. Por isso, o Copom manteve na ata a expressão ¿parcimônia¿ para indicar a necessidade de cautela no processo de redução dos juros.
No entanto, se alerta para as novas incertezas no cenário externo, o Copom frisa que o Brasil está cada vez mais resistente a choques internacionais. Observa, ainda, que o cenário para a inflação continua ¿benigno¿ e destaca que, pela primeira vez desde o final de 1986, a economia apresenta crescimento por 13 trimestres consecutivos. Para os diretores do Banco Central, esse cenário sugere consolidação do processo de expansão da economia.
A ata também faz referência ao crescimento de 6,3%, em 2006, da Formação Bruta de Capital Fixo. Foi o segundo melhor resultado em nove anos desse indicador, que mede a realização de novos investimentos.
O documento nota ainda que, em janeiro,houve crescimento de 1,7% na produção de bens de capital, o que sinaliza que o movimento de aumento dos investimentos deve continuar em 2007.