Título: Demissões tiveram razões políticas, admite Gonzales
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Fonte: O Estado de São Paulo, 14/03/2007, Internacional, p. A14

O secretário de Justiça dos EUA, Alberto Gonzales, reconheceu ontem que a Casa Branca está envolvida na demissão de oito procuradores públicos, em dezembro do ano passado. Em entrevista coletiva, ele disse que tentará descobrir por que o Congresso não foi informado antes do envolvimento do governo nas demissões. 'Reconheço que houve erro e assumo a responsabilidade', afirmou Gonzales.

Depois que os procuradores foram dispensados sem explicações, surgiram rumores, nunca comprovados, de que as demissões tiveram motivação política. A maioria dos demitidos investigava casos de corrupção envolvendo o governo federal.

Desde então, vários outros procuradores públicos se queixaram de ameaças e pressões de deputados republicanos, principalmente para acelerar investigações que conduziam sobre supostas fraudes eleitorais democratas. Tentando dar uma explicação razoável, o Departamento de Justiça disse várias vezes que as demissões eram rotina. Ninguém engoliu a alegação, já que pelo menos sete dos oito demitidos tinham conduta impecável. O Congresso resolveu investigar o caso.

Ontem, as investigações chegaram a Kyle Sampson, principal assessor de Gonzales e responsável direto pelas demissões. Ele admitiu ter omitido informações do Congresso e pediu demissão, aceita pelo secretário de Justiça. Apesar de ter reconhecido o erro e das pressões de congressistas democratas, Gonzales afirmou ontem que não renunciará.

E-mails e outros documentos internos do Departamento de Justiça revelaram que a Casa Branca tinha intenção de intervir no Judiciário. Segundo informações divulgadas ontem por vários jornais americanos , em fevereiro de 2005, Harriet Miers, conselheira jurídica do presidente George W. Bush, sugeriu a demissão de todos os 93 procuradores. Gonzáles, porém, escolheu apenas 8 da lista.

A Casa Branca, por meio de um porta-voz, admitiu que o próprio Bush havia se queixado a Gonzales de que muitos procuradores não estavam se empenhando suficientemente na investigação dos casos de fraudes eleitorais que envolviam os democratas.

Um mês depois, começaram as demissões. Em fevereiro, um relatório encomendado pelo Congresso mostrou que - desde 1981 - de 486 procuradores, 54 pediram demissão e apenas 3 foram demitidos sem justificativa.