Título: Bento XVI pede missa em latim e chama 2º casamento de 'praga social'
Autor: Westin, Ricardo
Fonte: O Estado de São Paulo, 14/03/2007, Vida&, p. A16

Num documento divulgado ontem no Vaticano, o papa Bento XVI defende que o latim volte a ser usado nas missas - pelo menos nas internacionais -, sugere que o canto gregoriano seja adotado nas igrejas e critica os padres que não seguem as regras litúrgicas e improvisam na celebração das missas.

Com 131 páginas, o documento Sacramentum Caritatis (O Sacramento do Amor) é a primeira exortação apostólica de Bento XVI, papa desde abril de 2005. Essa exortação é uma espécie de resumo do que se discutiu no último Sínodo dos Bispos, em outubro do mesmo ano, no Vaticano, e vale como orientação para os religiosos do mundo todo.

O latim deixou de ser língua obrigatória nas missas em meados dos anos 60, após o Concílio Vaticano II abrir caminho para a modernização da Igreja. Desde então, as celebrações são nas línguas locais. Essa primeira grande mudança permitiu o surgimento dos carismáticos, suas músicas dançantes e seus padres performáticos.

Com o documento tornado público ontem, Bento XVI - que virá ao Brasil em maio - reafirma suas convicções conservadoras. Antes de ser papa, ele era o prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé e tinha como função zelar pela ortodoxia católica. Na época, principal figura da linha dura do Vaticano, ele perseguiu religiosos progressistas como Leonardo Boff e o bispo emérito de São Félix do Araguaia, d. Pedro Casaldáliga.

'Nessa exortação, o papa retoma aspectos tradicionais e conservadores e, de certa forma, volta ao período anterior ao Concílio Vaticano II', diz Fernando Altemeyer, professor de Teologia da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo.

Altemeyer acredita que o uso do latim em missas servirá para 'qualificar a ignorância em lingüística e semântica' da população e do próprio clero. 'Os grupos conservadores vão adorar isso. Mas precisamos lembrar que não temos um clero capaz, com formação em latim. Vai ser estranhíssimo o latim macarrônico', prevê.

O documento do Vaticano sugere que os padres evitem as confissões comunitárias, não permitam que a parte da missa em que os fiéis se cumprimentam dizendo 'a paz de Cristo' se estenda demais e provoque distração e cuidem da estética das igrejas, principalmente as obras de arte e a arquitetura.

VERDADEIRA PRAGA

O papa aproveitou a exortação para elogiar o ecumenismo. No entanto, descartou que os fiéis de outras Igrejas cristãs comunguem nas missas católicas.

Reafirmou que os divorciados que se casaram de novo estão proibidos de comungar - os casamentos de divorciados, segundo ele, são 'uma verdadeira praga' -, que o matrimônio só é possível entre homem e mulher e que os padres têm de ser castos. Além disso, incentivou os políticos católicos a não apoiar leis que atentem contra a família e a vida - isto é, a rejeitar leis que beneficiem os casais homossexuais e facilitem o aborto e a eutanásia.

'O papa busca colocar regras na missa e na família', resume o teólogo Jung Mo Sung, professor da Universidade Metodista de São Paulo. 'Mas, pessoalmente, eu não acho salutar colocar uma lei tão geral e absoluta.'