Título: Lula dá posse a 3, fala por 19 minutos, mas não toca em diretrizes de governo
Autor: Monteiro, Tânia e Nossa, Leonencio
Fonte: O Estado de São Paulo, 17/03/2007, Nacional, p. A6
Em uma cerimônia concorrida, no Palácio do Planalto, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva empossou ontem três novos ministros de áreas responsáveis por ações sociais consideradas fundamentais pelo governo: o deputado Geddel Vieira Lima, na Integração Nacional, José Gomes Temporão, na Saúde, ambos peemedebistas, e o petista Tarso Genro, no Ministério da Justiça. Nos 19 minutos do discurso de improviso para um salão lotado de convidados, Lula não deu nenhuma orientação política nem técnica sobre o que espera dos novos colaboradores. Preferiu fazer chiste, falar de futebol e reclamar dos salários do serviço público, dizendo que os que aceitam tais vencimentos são ¿heróis¿ - embora não tenha se incluído nesse rol (leia reportagem abaixo).
Lula defendeu a nova equipe e sustentou que o governo não perdeu qualidade com as mudanças. Mais uma vez recorrendo ao futebol como metáfora, comentou a qualidade de seu ministério, comparando-o a times lendários do futebol brasileiro, como o Botafogo dos tempos de Didi e Garrincha, do Santos de Durval e Mengálvio e do Flamengo de Zico e Nunes. ¿Você tira um bom e tem outro bom para entrar. Você não piora a qualidade do time, mas aperfeiçoa. É uma mudança apenas da tática que o técnico tem de fazer.¿
O presidente, no entanto, deixou claro que alguns nomes deixam o governo contra sua vontade. É o caso de Márcio Thomaz Bastos, que saía da Justiça. Lula elogiou sua ¿cabeça equilibrada¿ nos últimos quatro anos e ressaltou que teve sua isenção e qualificação profissional reconhecida até pela oposição. ¿Todo mundo sabe que o Márcio está saindo porque cansou de ser ministro, mas não cansou da vida¿, comentou.
Em tom de brincadeira, Lula disse que Bastos precisará continuar a defendê-lo, de graça, como fazia nos tempos de sindicalismo, depois que deixar a Presidência. ¿Certamente, ele vai continuar sendo meu advogado, porque quem já foi presidente, governador e prefeito sabe que os processos contra a gente aparecem quando a gente não tem mais o mandato¿, completou. Para o novo ministro, Tarso Genro, Lula apenas desejou sorte e observou que ¿o jogo é duro¿.
O presidente também dedicou trecho de seu discurso ao peemedebista Geddel Vieira Lima, sugerindo que, agora, seu passado não importa - o deputado foi forte aliado de Fernando Henrique Cardoso durante o mandato do tucano. Depois de citar que o ex-oposicionista ¿é o exemplo mais forte¿ da coalizão do governo, acrescentou: ¿É a demonstração inequívoca de que, quando falamos em coalizão, falamos para valer, porque se a gente fosse analisar apenas o que as pessoas fizeram ontem, sem pensar no que as pessoas vão fazer amanhã, a gente não teria acordo em muitas das coisas que a gente faz com os partidos.¿ E prosseguiu: ¿A felicidade de alguém que exerce um segundo mandato é que eu não tenho tempo de pensar em ontem¿.
MISSÃO DIFÍCIL
Em tom descontraído, Lula disse que Temporão terá missão difícil. ¿O companheiro Temporão é quase uma unanimidade na área e todos sempre falaram que ele é um quadro excepcional e extraordinário¿, observou Lula. ¿Se na teoria você parecia tudo isso, agora vamos dar o pepino da Saúde para administrar.¿ O ministro não deixou a brincadeira sem resposta. ¿Tem alguns amigos meus que dizem que uma das minhas especialidades é enfrentar pepinos e abacaxis. Mas eu me sinto muito confortável nessa missão¿, disse, em entrevista após a posse.
Com indicação bancada pelo governador Sérgio Cabral, o novo ministro da Saúde tem boa influência na rede pública e na cadeia de hospitais privados, conforme observou o próprio presidente em seu discurso. ¿O pessoal da rede pública e também o pessoal dos hospitais particulares mais nobres dizem que escolhi um grande cara¿, afirmou, completando com um trocadilho. ¿Se fosse Temporal, eu teria dúvida em convidá-lo para ser ministro.¿
Temporão afirmou que se sente um representante do PMDB e também dos sanitaristas brasileiros. ¿Eu me sinto bem confortável nesta dualidade¿, ressaltou.
O novo ministro da Integração Nacional adaptou seu discurso à função. Político da Bahia, Estado onde há a mais forte resistência à idéia de transposição das águas do Rio São Francisco, Geddel prometeu empenho para tocar o projeto adiante.¿O que nós precisamos mostrar é que esse projeto não prejudica ninguém. Nosso grande desafio é mostrar que o projeto ajuda¿, afirmou. ¿Estou preparado para todos os embates que terei que fazer. O meu dever é cumprir a orientação do governo.¿
A transposição é a principal iniciativa em curso na Integração Nacional e que vem enfrentando críticas de entidades ambientalistas e movimentos sociais. Geddel afirmou que o projeto precisa ser explicado à população. ¿Tem de haver diálogo antes, durante e depois.¿