Título: Tuberculose infantil ganha exame eficaz
Autor: Girardi, Giovana
Fonte: O Estado de São Paulo, 24/03/2007, Vida&, p. A28
A tuberculose, doença que atinge cerca de 90 mil pessoas por ano só no Brasil, costuma ser considerada uma moléstia de adultos, em especial de pacientes com aids. Não existem estatísticas públicas sobre crianças mortas ou infectadas, principalmente porque o diagnóstico é difícil, mas o problema existe e pede atenção, porque revela que o controle da doença em adultos não tem sido eficaz (a única forma de elas se infectarem é por contato com um adulto doente).
Em todo o mundo, 1,6 milhão de pessoas em média morrem por ano por causa da doença, apesar de ela ser tratável, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS). No Brasil, de acordo com o Ministério da Saúde, são 5 mil mortes. Em comunicado divulgado na quinta-feira, por ocasião do Dia Mundial da Luta contra a Tuberculose (comemorado hoje), a OMS afirmou que os números gerais estão estabilizados, com uma leve tendência de queda.
¿Mas quando observamos o que vem ocorrendo com as crianças percebemos que existe uma falsa impressão de que a doença está diminuindo¿, afirma a pesquisadora Haiana Charifker Schindler, do Centro de Pesquisa Aggeu Magalhães (CPqAM), unidade da Fiocruz no Recife. Ela desenvolveu uma nova forma de diagnosticar a doença, com teste de sangue, que é capaz de identificar o problema em 95% dos casos. Os exames existentes hoje detectam a presença da bactéria em crianças em no máximo 40% dos casos. Em adultos, 80%.
Isso ocorre porque os métodos convencionais avaliam a presença do bacilo Mycobacterium tuberculosis no escarro dos pacientes, mas crianças menores de 7 anos não expectoram. De um modo geral elas acabam engolindo, então o teste é feito com material encontrado no estômago. Mas aí ocorrem outros problemas para o diagnóstico. A secreção conta com poucos bacilos ( para acusar a doença com eficiência, o exame pede a presença de pelo menos uns 10 mil), e a acidez gástrica prejudica a sensibilidade.
Fora isso, a tuberculose infantil não é muito característica. ¿Os sintomas como tosse, febre, ausência de apetite e perda de peso aparecem também em outras doenças, como viroses. Quando tiramos raio X do pulmão, não vemos uma imagem clássica, como a `caverna¿ que aparece nos adultos, então tudo fica mais complicado¿, explica Haiana.
Com o exame desenvolvido pelo CPqAM, é possível detectar a doença diante da presença de um único bacilo em uma amostra de sangue. Outra vantagem é que o resultado leva 24 horas para sair, ante as seis ou oito semanas dos outros métodos. Na primeira fase do estudo, Haiana avaliou 62 crianças com suspeita da doença (41 apresentavam os sintomas e 21 não, mas tinham familiares doentes), 32 que haviam sido descartadas só pela observação clínica de um especialista, além de outras 15 como grupo controle.
Nas 41 sintomáticas, o exame deu positivo em 92,6% das amostras. Nas 21 crianças que não tinham sintoma, o teste foi positivo em 80,9% dos casos. E nas 32 que tinham sido descartadas, 5 na verdade estavam doentes. Nas 15 saudáveis, como era de se esperar, o exame deu negativo. ¿Os serviços públicos não estão preparados para identificar a tuberculose em crianças. É como se a doença não existisse nelas. Até os remédios são pensados apenas para os adultos¿, afirma.
¿No entanto uma pesquisa preliminar nossa mostra que 72% das crianças que convivem com adultos doentes estão infectadas. É preciso diagnosticá-las¿, diz. Ela espera conseguir criar uma espécie de kit diagnóstico que seja usado pelo Ministério da Saúde em todo o País. Além das crianças, adultos que apresentam formas da doença com poucos bacilos ou estão com o sistema imunológico debilitado podem ser beneficiados.
PRÊMIO PARA CURA
A Secretaria de Estado da Saúde de São Paulo lançou ontem um programa de incentivo à redução dos casos de tuberculose no Estado. A idéia é reforçar a notificação e a cura da doença. A secretaria irá pagar a cada prefeitura das 50 cidades com maior número de casos R$ 100 por cada notificação e mais R$ 400 por caso curado (comprovado por pelo menos dois testes negativos após o tratamento).