Título: Protestantes e católicos selam pacto histórico na Irlanda do Norte
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Fonte: O Estado de São Paulo, 27/03/2007, Internacional, p. A12
Numa decisão histórica, os líderes dos partidos protestante e católico da Irlanda do Norte acertaram ontem a formação de um governo conjunto a partir de 8 de maio na província britânica. O anúncio foi feito pelo pastor protestante Ian Paisley, do Partido Unionista Democrático (DUP), e pelo católico Gerry Adams, do partido republicano Sinn Fein, que se reuniram frente a frente pela primeira vez e, sem apertar as mãos, colocaram um ponto final a décadas de hostilidades entre os dois grupos.
¿Não devemos permitir que nosso passado de tragédias e ódios se torne uma barreira na criação de um futuro melhor e mais estável para nossos filhos¿, afirmou Paisley, que será o primeiro-ministro da Irlanda do Norte. ¿Esse acordo marca o início de uma nova era na política desta ilha¿, disse Adams. Até então, os dois líderes só haviam negociado por meio de representantes. Paisley e Adams anunciaram que começarão imediatamente a formar as bases da nova plataforma conjunta do governo. Já está determinado que o republicano Martin McGuinness será o vice-premiê de Paisley.
A Grã-Bretanha e a República da Irlanda tinham dado um prazo até a meia-noite de ontem para que os partidos chegassem a um acordo. A data agora foi estendida para 8 de maio. Britânicos e irlandeses vinham pressionando os dois rivais há quase uma década para que concordassem em dividir o poder, já que essa seria a única alternativa para acabar com o conflito, que desde 1969 matou cerca de 3.600 pessoas e deixou 35 mil feridos - a maioria civis.
A divisão de poder na Irlanda do Norte foi determinada em abril de 1998, no Acordo da Sexta-Feira Santa. O novo sistema de governo foi adotado no ano seguinte, mas fracassou. Isso porque, em 2002, a coalizão foi suspensa por causa de um impasse na questão do desarmamento do Exército Republicano Irlandês (IRA), grupo armado católico ligado ao Sinn Fein. A situação fez com que a província voltasse a ser administrada pela Grã-Bretanha, como ocorre até hoje e sempre foi o desejo dos unionistas. Já o Sinn Fein defendia o fim do domínio britânico e a incorporação à República da Irlanda, de maioria católica.
Os partidos voltaram a negociar somente em 2005, quando o IRA finalmente anunciou que deixaria a luta armada. No dia 7, foram realizadas eleições legislativas nas quais os unionistas obtiveram 36 das 108 cadeiras do Parlamento e o Sinn Fein, 28.
¿Este é um dia muito importante para os norte-irlandeses. Tudo o que fizemos na última década foi em preparação para este momento¿, afirmou o primeiro-ministro britânico, Tony Blair. Para o premiê irlandês, Bertie Ahern, ¿a decisão pode transformar o futuro da ilha¿. Tom Casey, porta-voz do Departamento de Estado dos EUA, afirmou que a decisão ¿dará continuidade ao processo de paz na região¿.
DÉCADAS DE CONFLITO
1969 - O grupo católico IRA inicia luta armada para acabar com o domínio britânico na Irlanda do Norte e uni-la à República da Irlanda.
1972 - Domingo Sangrento: forças britânicas matam 13 católicos em Londonderry.
1998 - Acordo da Sexta-Feira Santa prevê governo de coalizão.
2002 - Governo conjunto fracassa com impasse sobre desarmamento do IRA. Britânicos voltam a administrar a Irlanda do Norte.
2005 - IRA abandona armas. Negociações são retomadas.
2007 - Novo governo de união.