Título: 'Negro brasileiro se sente oprimido'
Autor: Mendes, Vannildo e Arruda, Roldão
Fonte: O Estado de São Paulo, 28/03/2007, Nacional, p. A4

Carlos Santana (PT-RJ), deputado federal

Entrevista

O deputado federal Carlos Santana (PT-RJ), da Frente Parlamentar da Igualdade e Promoção Racial, considera que a ministra se referiu, sem hipocrisia, a um problema que existe. Na opinião dele, o racismo de negros contra brancos é bastante forte no Brasil.

O senhor acha que existe racismo de negros contra brancos entre os brasileiros?

Sim. Ele existe e não é pouco. E a origem dele é a opressão. Nunca nos deram os mesmos direitos, como demonstram pesquisas feitas pelos brancos sobre oportunidades sociais, escolaridade. O negro brasileiro se sente oprimido.

O senhor acha que há uma tendência para a exacerbação deste racismo?

Não. O esforço este governo está fazendo com políticas, cotas, leis para a comunidade afrodescendente é uma forma de resgatar o que se perdeu lá atrás. Temos que continuar nesse caminho, procurando a igualdade racial.

Não acha que a conscientização dos negros sobre a exclusão social poderia agravar os pontos de conflito?

Quanto mais consciente, mais o negro percebe o quanto é marginalizado pelo branco - que representa a classe social dominante. Mas essa não é uma luta que se define pelo pigmento da pele. Temos pessoas com pele branca que assumem nossa luta. E também temos pessoas de pele negra que não assumem sequer que são negros. É o caso do Pelé, que nunca se manifestou a respeito de políticas afirmativas, de cotas para os negros nas universidades. Outras personalidades, como cantores, artistas, já se manifestaram, mas o nosso representante máximo nunca fez qualquer pronunciamento.

O senhor acha que estão ocorrendo avanços com a atual política do governo?

Houve avanços, mas ainda estamos muito atrasados. Houve um genocídio em nosso país e os passos para superar isso são muito lentos. No mundo inteiro existem políticas de cotas. No Brasil, quando se discute o assunto parece que estamos falando em matar alguém.

Como senhor viu a declaração da ministra?

Ela deve ser vista dentro de um contexto geral, da história do Brasil, que foi sempre contada sob o ponto de vista dos brancos. Segundo essa história, nós somos descendentes de escravos - e não de povos africanos, com sua cultura, suas tradições. A ministra vai contra a idéia que as classes dominantes tentam impor de que não temos um problema racial, mas social.