Título: O levante contra o levante na França
Autor: Clarke, Stephen
Fonte: O Estado de São Paulo, 01/04/2007, Internacional, p. A26
Os franceses dizem ser um país de rebeldes. Guilhotinaram Luís XVI em 1793, promoveram levantes em 1848 e 1871 e vangloriam-se de manter esta nobre tradição de protesto no hábito de provocar distúrbios ao simples sinal de descontentamento político.
Mas a verdade é que seu apogeu revolucionário já passou. Os rebeldes franceses do século 21 protestam contra a mudança, não a seu favor.
Hoje, o que normalmente acontece é que um governo decide fazer algo radical - digamos, permitir que as companhias demitam empregados do setor de serviços que agridam seus clientes. Os sindicatos enxergam nisso o primeiro passo na descida rumo à escravidão e convocam uma greve nacional. Depois de uma semana de pose, o governo recua e os garçons e vendedores voltam a insultar os fregueses exatamente como faziam desde tempos imemoriais.
A campanha presidencial de 2007 ilustra a profundidade desse conservadorismo enrustido. Depois de um início de campanha relativamente empolgante, animado pela boataria, os franceses decidiram, às vésperas do primeiro turno de abril, que tudo deveria ser chato de novo.
Historicamente, os presidentes franceses são velhos e carecas - Valéry Giscard d¿Estaing, François Mitterrand, Jacques Chirac. Em termos de sensualidade, imaginem uma fila interminável de Dick Cheneys. Desta vez, contudo, todos os favoritos têm todos os seus cabelos e um deles usa batom. Uma novidade e tanto.
No campo direito, temos um defensor do livre mercado e amigo de pop stars, Nicolas Sarkozy, de 52 anos. Na esquerda, está Ségolène Royal, de 53 anos, mas parecendo mais nova a cada dia. Ela não é casada, mas tem quatro filhos com o parceiro, François Hollande, presidente do Partido Socialista.
Dada a juventude de Ségolène e Sarkozy, não surpreende que o sexo assuma um papel de dimensões inéditas numa campanha eleitoral. Todo mundo sabia que D¿Estaing, Mitterrand e Chirac tinham amantes, mas ninguém ligava, pois tudo era feito com discrição. Além disso, os franceses não acreditam que a monogamia aumente a eficiência de um político.
Desta vez, o sexo saltou furioso do armário. Houve o incidente de alguns anos atrás, quando a mulher de Sarkozy, Cécilia, fugiu para Nova York com o amante. Numa reviravolta dramática, Sarkozy atraiu a esposa de volta, talvez com promessas de que ela em breve poderia escolher as cortinas do palácio presidencial.
Por sua vez, o sorriso de Mona Lisa no rosto de Ségolène sugere que seu médico receitou alguns chás muito relaxantes ou ela é excepcionalmente apaixonada por campanhas eleitorais. Sua expressão, digamos, permanentemente satisfeita motivou tanta especulação sobre sua vida sexual que ela fez ameaças legais a websites fofoqueiros.
Em resumo, até bem recentemente, a campanha de 2007 foi glamourosa e clintonesca, uma disputa via revistas de celebridades - um assunto completamente moderno, conduzido pela mídia.
NOSTALGIA
No fundo, porém, os franceses não confiam no modernismo. Têm saudades do tempo em que sua língua era a língua internacional da diplomacia e só os franceses faziam vinho espumante. Isso pode explicar por que um terceiro candidato de repente tornou-se um concorrente tão forte.
Há oito semanas, o centrista François Bayrou, ex-ministro da Educação, ainda era uma figura marginal, na lanterna das pesquisas ao lado dos marxistas e da brigada do ¿salvem a trufa orgânica¿. Desde então, ele saltou para alcançar os líderes. Estacionou no terceiro lugar, mas uma pesquisa previu na semana passada que, se Bayrou e Sarkozy se enfrentassem no segundo turno, em maio, Bayrou venceria.
A questão é: pourquoi? Bem, Bayrou é o candidato antiexcitação, uma espécie de Prozac político depois de todas as anfetaminas do conflito Sarkozy-Ségolène.
Ele é bastante jovem, com 55 anos, e tem uma cabeça relativamente cheia de cabelo, mas até agora deixou os paparazzi num atordoamento soporífero. Ele quer unir todo mundo: é membro de um partido centrista, mas bem poderia nomear um primeiro-ministro socialista; é católico, mas é um firme defensor do secularismo nas escolas. A mensagem é que, se ele pode unir Deus e os ateístas, certamente pode unir a França.
Acima de tudo, ele é algo que até mesmo os eleitores urbanos consideram essencialmente francês: um agricultor. Seu site oficial o mostra juntando feno na fazenda da família. Recentemente, a revista Le Point citou Bayrou afirmando: ¿Meus amigos e eu não somos o jet set (os ricos que viajam pelo mundo a se divertir). Somos o tractor set.¿
Não se deve subestimar a força dessa imagem rústica na psique nacional. Se você pedisse a um francês médio que escolhesse entre um presidente reformista que atacasse o enorme déficit do país e um bom queijo, ele provavelmente escolheria o queijo.
É por isso que, na França, os candidatos não beijam só bebês, mas também vacas. Políticos correram para a recente Feira Agrícola de Paris a fim de ser fotografados abraçando o gado. E, no abraço com um amigo quadrúpede e felpudo, ninguém pareceu mais convincente que Bayrou.
Sua ascensão nas pesquisas parece provar que os franceses, apesar do que dizem, levantam-se contra o levante, revoltam-se contra a revolta.
Eles querem que as coisas continuem como sempre foram. Luís XVI só motivou os súditos a guilhotiná-lo porque tentou fugir do país, assumindo assim a aparência de traidor. Se ele tivesse permanecido em Paris, abraçando alguns touros premiados, a França provavelmente ainda seria uma monarquia.