Título: Nancy se reúne com Assad e irrita a Casa Branca
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Fonte: O Estado de São Paulo, 05/04/2007, Internacional, p. A13
A presidente da Câmara de Deputados dos EUA, Nancy Pelosi, reuniu-se ontem com o presidente sírio, Bashar Assad. O encontro serviu para que ela levasse ao líder sírio uma oferta de diálogo feita pelo primeiro-ministro israelense, Ehud Olmert, que se diz disposto a retomar as conversas de paz do conflito árabe-israelense estagnadas desde janeiro de 2000. ¿Ficamos contentes em saber que o presidente Assad está pronto para retomar o processo de paz¿, disse Nancy. ¿A Síria adotou a iniciativa árabe, sua escolha estratégica é a paz¿, afirmou Assad.
Após o encontro, Nancy viajou para Riad, na Arábia Saudita, onde foi recebida pelo rei Abdala. As conversas com o monarca saudita também giraram em torno da paz com Israel. A viagem da líder democrata ao Oriente Médio - ela já passou pelo Líbano, por Israel e pelos territórios palestinos - foi duramente criticada pelo presidente George W. Bush, que lamentou que o país esteja enviando ¿sinais contraditórios¿ ao presidente Assad.
¿Enviar uma delegação à Síria faz com que Assad pense que ele é parte da comunidade internacional, quando, na verdade, a Síria é um Estado que financia o terrorismo¿, disse Bush na noite de terça-feira.
Nancy, que o ocupa o terceiro cargo político mais importante dos Estados Unidos - atrás de Bush e do vice-presidente, Dick Cheney -, respondeu. ¿Todo mundo sabe a ligação da Síria com o Hamas e o Hezbollah. Justamente por isso foi uma boa idéia ter vindo¿, afirmou. ¿Precisamos conversar com eles.¿
Enquanto o governo Bush critica o diálogo com um país que, segundo a Casa Branca, faz parte do ¿eixo do mal¿, analistas lembram que foi exatamente por meio de negociações que Bush conseguiu importantes acordos com a Líbia e a Coréia do Norte, Estados que também eram mantidos em isolamento pela política externa americana.
Para a maioria dos especialistas, o problema não é conversar com Estados párias, mas sim quem representa os Estados Unidos nas negociações. Por isso, o giro de Nancy pela região está sendo interpretado como mais um desafio dos democratas à política externa de Bush e faz parte da campanha da oposição para minar o governo republicano e retirar as tropas americanas do Iraque.
Bush tenta isolar diplomaticamente a Síria desde 2003, quando as relações entre os dois países foram interrompidas. Entretanto, muitos garantem que se a iniciativa tivesse partido do Departamento de Estado, não haveria problema. No entanto, como a ação partiu da oposição, o governo não gostou.
Nesse contexto, a visita de Nancy ao Oriente Médio seria uma conseqüência muito mais da política interna do que externa. A maior evidência nesse sentido seria o histórico das visitas oficiais de políticos americanos à Síria. No último domingo, dois dias antes da chegada de Nancy, uma comitiva de três deputados republicanos visitou o presidente sírio em Damasco sem que nenhuma crítica fosse feita pela Casa Branca. Além disso, na própria comitiva de Nancy há um deputado republicano, David Hobson, de Ohio.