Título: Para BC, só redução do superávit comercial segura queda do dólar
Autor: Oliveira, Ribamar
Fonte: O Estado de São Paulo, 05/04/2007, Economia, p. B4

A tendência de valorização do real ante o dólar só será revertida com a redução do saldo da balança comercial do País, segundo análises feitas por técnicos do Banco Central (BC) que estão chegando às principais lideranças da base do governo no Congresso.

De acordo com essa explicação, a subida do real está muito mais relacionada com a enxurrada de dólares que ingressa no Brasil por conta do desempenho das exportações do que com os recursos estrangeiros que entram no País com o objetivo de aproveitar a elevada taxa de juro real paga internamente.

Os críticos do BC dizem que o real está sobrevalorizado - como fez o ex-secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda Júlio Sérgio Gomes de Almeida, afastado ontem do cargo - porque o Brasil tem a mais alta taxa real de juros do mundo.

Essa situação, decorrente da política monetária do Banco Central, atrai investidores que ganham na arbitragem entre a taxa de juro interna e a externa, o que ajuda a valorizar ainda mais a moeda brasileira.

A argumentação que o Banco Central está apresentando aos aliados do governo é a de que os fundamentos da economia brasileira estão mais sólidos e o País apresenta reservas internacionais de quase US$ 110 bilhões.

RISCO

De acordo com essa análise, esses indicadores melhoram a percepção do Brasil por parte dos investidores internacionais, o que resulta na queda do risco Brasil.

Ontem, o risco Brasil chegou a atingir durante o dia 163 pontos básicos, o menor nível da história. Uma fonte do mercado lembrou também que o Tesouro Nacional lançou bônus anteontem e ontem com vencimentos em 2017, com taxa de juro de 5,88% ao ano, a menor paga até hoje.

Cálculo feito pelo Banco Central , com base numa cesta de 15 outras moedas, mostra que a taxa de câmbio real efetiva está no mesmo nível de junho de 1994, ou seja, no início do Plano Real.

A situação atual ainda está, por esse cálculo, longe daquela vivida pelo País antes da crise cambial de 1999, que levou o governo Fernando Henrique Cardoso a adotar o sistema de câmbio flutuante.

TROCA DE EQUIPE

A demissão de Júlio Sérgio Gomes de Almeida foi considerada normal pelos aliados do governo, em virtude da orientação dada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva na última reunião ministerial. O presidente disse que não quer brigas públicas entre ministérios e que as divergências precisam ser discutidas internamente.

Os líderes aliados consideram que a disciplina definida por Lula é essencial para que o governo encontre unidade em sua ação.

Os líderes aliados estão preocupados, no entanto, com o efeito do real valorizado em alguns setores da economia, como o de têxtil, calçados e móveis. Esses setores estão sofrendo forte concorrência de produtos chineses, principalmente. Eles acham que o governo deve adotar medidas de proteção a esses setores, que empregam grande número de trabalhadores.