Título: Imigração e nacionalismo monopolizam eleição na França
Autor: Netto, Andrei
Fonte: O Estado de São Paulo, 08/04/2007, Internacional, p. A16

A sensação de rejeição por parte dos franceses é cada vez mais presente entre estrangeiros e seus descendentes oriundos da África árabe e muçulmana - da Argélia, do Marrocos e da Tunísia, em sua maioria.

Há duas semanas, a revolta e violência que já haviam explodido em 2005 e 2006 nos banlieus, a periferia das grandes cidades francesas, voltaram a sacudir duas regiões emblemáticas de Paris, transformando segurança pública, política de imigração e nacionalismo em temas centrais da eleição presidencial do dia 22 - e também uma justificativa para a ascensão da direita nas pesquisas de opinião.

O estopim do novo foco de tensão social foi a prisão, em 19 de março, de um imigrante chinês sem o documento de permanência no país. Ele foi abordado e detido quando buscava a neta na Escola Maternal Rampal-Lasalle, no bairro de Belleville, 19º distrito de Paris, o que provocou indignação da comunidade estrangeira na França. Os policiais ignoraram uma lei federal que impede a detenção de imigrantes ilegais nas proximidades de instituições educacionais.

No dia seguinte, discussões ásperas entre pais de alunos e policiais voltaram a inflamar os ânimos nos arredores da escola. A tensão chegou ao ápice com a convocação para depoimento e a detenção, por sete horas, da diretora da escola, Valérie Boukobza, que havia decidido proteger pais e alunos - atitude admirada por professores, que lhe manifestaram apoio. ¿Outros diretores de colégios me procuraram porque chegam a ter 25% de alunos filhos de pais estrangeiros e ilegais. Há situações mais graves do que a que vivemos em Belleville, ainda que tenhamos muitos imigrantes¿, disse Valérie ao Estado, em entrevista concedida sob a condição de não ser gravada. ¿Estamos tratando de crianças que estão na França e precisam estudar. Vejo a situação atual como um conflito perigoso entre dois órgãos do Estado. O certo seria poder confiar na polícia¿, acrescentou a diretora.

A detenção de Valérie em Belleville, um bairro popular marcado pela prostituição e a presença de imigrantes da África negra e da Ásia, provocou protestos em cadeia na França. Na sexta-feira seguinte, uma greve de professores mobilizou 30% dos docentes de escolas públicas. No meio intelectual, proliferaram os artigos em jornais recriminando o autoritarismo da polícia, subordinada ao Ministério do Interior - até 21 de março, dois dias após a detenção do imigrante chinês, dirigido pelo candidato de direita da União por um Movimento Popular (UMP), Nicolas Sarkozy. ¿Desde então, há crianças de 8, 9 anos de idade perguntando por que a polícia quer prender seus pais. O efeito imediato dessa política é que muitas crianças não querem mais ir à escola, com medo de que aquelas cenas se repitam¿, diz Valérie.

VANDALISMO NO METRÔ

A tensão social voltou a se manifestar menos de uma semana depois. Uma blitz banal de fiscalização do pagamento de passagens no metrô acabou levando a ações de vandalismo e confronto entre policiais e centenas de jovens. O cenário foi, mais uma vez, simbólico: Gare du Nord, maior estação da Europa e ponto de conexão de trens de alta velocidade entre Paris, Londres, Bruxelas e Berlim, linhas do metrô parisienses e duas rotas do RER, o metrô que liga a capital à periferia. Em última análise, o ponto de encontro entre a Europa dos negócios, a Paris branca e escolarizada, e a periferia de imigrantes marginalizados.

Os fatos levaram François Bayrou, candidato centrista da União pela Democracia Francesa (UDF), a avaliar que o país ¿vive um momento social explosivo e os menores acontecimentos estão fazendo a tensão explodir¿. Olivier Galland, sociólogo da Universidade René Descartes (Paris V, Sorbonne) especializado no tema, endossa a análise: ¿Há uma forte tensão entre jovens e a polícia, ou seja, o Estado. A polícia é considerada ilegítima, seja porque os humilha com controles sistemáticos e violentos, seja porque, em alguns casos, reprime a delinqüência e o tráfico de drogas, tido por alguns desses jovens como o único modo de sobrevivência¿, disse Galland ao Estado.

Por trás das ações de violência, lembra Galland, está a fratura social decorrente da discriminação crescente, mesmo que o país tenha fluxos migratórios moderados em comparação a outros países da União Européia. ¿Parte da população jovem é de nacionalidade francesa, mas de origem estrangeira. Eles têm dificuldades de adaptação ao trabalho e à escola porque são vítimas de discriminação¿, afirma Galland. Sociólogos e cientistas políticos se dividem em responsabilizar os recentes arroubos nacionalistas dos dois líderes nas pesquisas eleitorais, Sarkozy e a socialista Ségolène Royal, pelos atos de violência. O fato é que as ondas de tensão voltaram a crescer após o anúncio, por Sarkozy, em caso de vitória, da criação de um Ministério da Imigração e da Identidade Nacional. Em lugar de encurralar o adversário, taxando-o de conservador, Ségolène se alinhou ao viés nacionalista ao defender o amor à bandeira francesa.

A despeito da recente guinada nacionalista de Ségolène, imigração e identidade nacional seguem temas que marcam de forma mais clara a divisão entre a direita, liderada pela UMP, e a esquerda, encabeçada pelos socialistas. A discussão preocupa a sociedade porque, ao receberem visto, estrangeiros passam a contar com amplos direitos sociais, o que representa um ônus financeiro ao Estado de bem-estar superior a 50% do déficit primário do país.

Enquanto para Sarkozy a imigração é um problema a ser contido, Ségolène encarna o discurso histórico da esquerda ao defini-la como 'uma oportunidade'. Sarkozy pretende exigir dos imigrantes condições financeiras que lhes permitam não trabalhar. Na prática, a UMP criará entraves para conceder o visto de longa permanência, como a exigência de um teste de proficiência no idioma - sob o argumento de que o domínio da língua e da cultura são essenciais para a adaptação à ¿identidade nacional¿. Ségolène, por outro lado, incorpora propostas da esquerda espanhola, de José Luis Rodríguez Zapatero, e promete um amplo trabalho de regularização de imigrantes ilegais.

¿São temas sensíveis, que vinham sendo explorados pela extrema-direita na última década e agora ganharam até o discurso da esquerda¿, afirma o cientista político Henri Rey, um dos diretores do Centro de Pesquisa Científica em Ciências Políticas de Paris (Cevipof). ¿Esse discurso provoca fatores de tensão e comportamentos sociais imprevisíveis¿, acrescenta.

Os protestos e a agressividade, entretanto, revelam-se ineficientes e, pior, nocivos à causa dos direitos humanos e da igualdade entre franceses e estrangeiros. Ministro do Interior durante quatro anos, Sarkozy fixou a imagem pública de ¿policial número 1¿ da nação. ¿Sarkozy gerenciou a segurança pública e moldou uma polícia que se diz republicana, mas que não tem mais relação com os serviços que deveria prestar. O resultado é a tensão e a violência¿, diz Francis Bailleau, sociólogo e diretor de pesquisa do Centro Nacional de Pesquisa Científica (CNRS).

A percepção pública, porém, é a oposta. ¿Na tradição política francesa, o tema da segurança e da ordem é historicamente ligado à direita¿, explica Rey. Resultado: Sarkozy, o policial número 1, e Jean-Marie Le Pen, o ultraconservador candidato da Frente Nacional, que propõe a expulsão em massa de imigrantes e a marcha à ré na União Européia, agradecem. Antes acuado por Ségolène, Sarkozy voltou a crescer nas pesquisas, abrindo, em média, 5 pontos de vantagem e alcançando 30% do eleitorado. Le Pen, por sua vez, também avançou nas pesquisas em busca de seu objetivo: usar o tema da violência para reeditar o segundo turno de 2002, entre a direita e a extrema-direita.