Título: PMDB cobrará de Lula todos os cargos de segundo escalão em seus ministérios
Autor: Samarco, Christiane
Fonte: O Estado de São Paulo, 06/04/2007, Nacional, p. A4

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva vai jantar com 150 peemedebistas, entre governadores, ministros e parlamentares, na próxima quarta-feira. A primeira reunião formal com o maior partido da coalizão foi marcada ontem de manhã, menos de 48 horas depois de o presidente ter dito em um jantar com senadores petistas que não quer ficar refém do PMDB. Quem levou o convite foi o presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), que será o anfitrião do encontro.

Antes mesmo de o presidente Lula confirmar sua presença, Renan já havia acertado com o presidente nacional do PMDB, deputado Michel Temer (SP), que ele recepcionaria os convidados, mas todas as despesas do jantar seriam pagas pelo partido. Mas não haverá refeição grátis para o presidente Lula: o Tesouro não vai desembolsar pelo jantar, mas arcará com os custos da parceria de outra forma, já que o prato principal do encontro será o preenchimento dos cargos de segundo escalão dos ministérios.

Além dos cinco ministros ligados ao PMDB (das Minas e Energia, Integração Nacional, Agricultura, Saúde e Comunicações), a lista de convidados inclui os sete governadores do partido (RJ, ES, PR, SC, TO, AM e MS), os 27 presidentes dos diretórios estaduais, a bancada na Câmara, com 93 deputados, e os 20 senadores. Todos, inclusive aqueles que se declararam de oposição, como o senador Jarbas Vasconcelos (PE), ou independentes, como o senador Mão Santa (DF), estão recebendo convites, por escrito, dando conta de que a atração principal do jantar será Lula.

¿Não tem nenhum incêndio para a gente apagar no PMDB do Senado, mas a convivência do presidente com a base é importante e sempre facilita muito¿, atesta o líder do governo no Senado, Romero Jucá (PMDB-RR). ¿Para usar as metáforas futebolísticas de que o presidente tanto gosta, eu diria que Lula é um artilheiro que tem que estar no jogo político porque, quando ele entra em campo, faz gol.¿

De fato, no que se refere aos senadores do PMDB, o maior desafio do governo já foi vencido - acalmar o presidente do Senado, depois da derrota de Renan nas disputas pela presidência da Câmara e do próprio partido. Os dois episódios desgastaram a relação de Renan e Lula, a ponto de o senador ter anunciado há 20 dias que colocaria na pauta vetos presidenciais a projetos aprovados no Congresso.

De lá para cá, Lula chamou Renan ao Planalto meia dúzia de vezes e o resultado é que o clima de boa vontade foi restaurado. No que se refere ao veto do presidente à Emenda 3, que não permitia a ação de fiscais da Receita contra empresas jurídicas com um único profissional, Renan mudou claramente de discurso. Em vez da defesa da votação do veto já, anunciou que primeiro irá ¿esgotar¿a via da negociação. Traduzindo: enquanto interessar, Renan não deixa derrubar o veto.

MAIS CONVERSA

Na conversa de ontem, o presidente do Senado deixou claro a Lula que a segunda fase da montagem da coalizão, que inclui a partilha dos postos de segundo escalão entre os aliados, vai demandar muito mais conversa. O que preocupa o PMDB hoje é a arbitragem dos conflitos.

Informados de que os ministros petistas da Casa Civil, Dilma Rousseff, e da Secretaria-Geral da Presidência, Luiz Dulci, ¿ajudariam¿ o governo no preenchimento desses cargos em todo o País, dirigentes do PMDB não escondem o temor de que o PT seja beneficiado nas disputas por cargos.

A prioridade da cúpula peemedebista nessa negociação é tentar reaver espaços que já estavam com o partido - especialmente no setor elétrico, onde a ministra Dilma mantém grande influência - e por razões eleitorais ou administrativas acabaram com o PT. Vários apadrinhados de petistas chegaram ao comando de alguns órgãos em caráter temporário, mas agora se movimentam para serem efetivados.

Foi assim que o PT chegou à presidência de Furnas no ano passado, cargo que o PMDB tenta retomar de olho especialmente no R$ 1,2 bilhão que a empresa tem para investir em 2007. É o cargo que mais preocupa o partido, não só pelas cifras que administra como pelo peso político do segmento peemedebista que entrou na disputa. Quem pleiteia o posto é a maior bancada estadual do PMDB - a do Rio, que indicou o ex-prefeito Luiz Paulo Conde para presidir a empresa, com o aval do governador Sérgio Cabral.

A mesma situação se repete com a Eletrobrás, dirigida pelo PT depois que o ex-deputado Aloysio Vasconcellos, do PMDB mineiro, deixou o posto que assumira com a bênção de Renan. Também é objeto de desejo a presidência da BR Distribuidora, com orçamento de quase R$ 800 milhões este ano. Temer e o líder na Câmara, Henrique Eduardo Alves (RN), gostariam de entregar o posto ao ex-deputado Moreira Franco.

O PT admite desalojar sua apadrinhada Graça Fortes da direção da empresa, desde que ela seja transferida para outro cargo de comando que também envolve disputa com o PMDB: a diretoria de exploração da Petrobrás, estatal que reserva nada menos que R$ 28,2 bilhões para investimentos em 2007.

NÚMEROS

150 peemedebistas, entre governadores, ministros e parlamentares, participarão do jantar com Lula

R$ 1,2 bilhão é quanto Furnas, cobiçada pelo PMDB, deve investir este ano

R$ 800 milhões estão previstos para a BR Distribuidora, cuja presidência é objeto de desejo do partido

R$ 28,2 bilhões são os recursos previstos para a Petrobrás em 2007.