Título: Investimento da Petrobrás no Irã vira atrito diplomático
Autor: Mello, Patrícia Campos
Fonte: O Estado de São Paulo, 31/03/2007, Nacional, p. A4
Um tema tem provocou divergência entre diplomatas brasileiros e americanos às vésperas do encontro entre os presidentes Lula e Bush. Apesar da tentativa do ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim, de contornar o mal-estar e defender a decisão da Petrobrás de investir no setor de petróleo no Irã, a Embaixada dos Estados Unidos no Brasil reiterou ontem a preocupação da Casa Branca e sua avaliação de que a iniciativa brasileira contraria as sanções aplicadas pelo Conselho de Segurança das Nações Unidas contra o Irã. A pressão surgiu na quarta-feira, em declarações do embaixador em Brasília, Clifford Sobel.
Há três anos, a Petrobrás mantém um contrato com Teerã, em parceria com a espanhola Repsol, para a pesquisa de jazidas de petróleo e de gás no Golfo Pérsico. O projeto prevê investimento de US$ 35 milhões e a companhia brasileira já iniciou a perfuração no local. Nos últimos anos, companhias estrangeiras injetaram US$ 126 bilhões no setor petroleiro do Irã. Além da Petrobrás, a holandesa Shell e a Repsol foram pressionadas pelos EUA.
¿O Brasil está respeitando as sanções do Conselho de Segurança, que são bastante precisas. As sanções nada dizem sobre a participação de companhias estrangeiras na produção e exploração de petróleo no Irã¿, rebateu Amorim, depois de um encontro oficial com a secretária de Estado dos EUA, Condoleezza Rice. ¿Não se investe em petróleo e outros recursos naturais por simpatia política ou por afinidade ideológica. Essa é uma decisão de natureza econômico-comercial.¿
Amorim enfatizou várias vezes aos jornalistas que o tema não foi mencionado por Condoleezza na conversa que mantiveram no Departamento de Estado e não deve ser abordado no encontro entre Lula e Bush. Entretanto, a aresta foi retomada com força pela embaixada americana em Brasília. ¿A política dos Estados Unidos é bem clara: nós achamos que os investimentos nos setores de petróleo e gás no Irã são contrários aos interesses da comunidade internacional de pressionar o regime iraniano a aceitar suas obrigações internacionais, a suspender suas atividade relacionados ao enriquecimento e ao reprocessamento do urânio e a aceitar o caminho de negociações construtivas¿, informou a embaixada, em nota à imprensa. O texto informa que Sobel tratou do tema com o governo brasileiro e o presidente da Petrobrás, José Sérgio Gabrielli.
No encontro de Amorim e Rice, Brasil e EUA firmaram o segundo acordo de cooperação conjunta em outros países - no caso, para o fortalecimento da Democracia em Guiné-Bissau - e consolidaram o início de uma nova etapa do relacionamento bilateral, que deve se estender pelo menos até o final da administração Bush, em 2009.
Levará os EUA a depositarem US$ 200 mil neste ano em um fundo para a assistência a Guiné-Bissau - US$ 80 mil menos que o desembolso americano no ano passado. O Brasil participará com a transferência de tecnologia para os processos eleitorais e com projetos para o fortalecer o Legislativo.