Título: Meta é viabilizar encontro de junho na Alemanha
Autor: Mello, Patrícia Campos
Fonte: O Estado de São Paulo, 31/03/2007, Nacional, p. A4
Os presidentes Luiz Inácio Lula da Silva e George W. Bush devem terminar o encontro bilateral de hoje com o compromisso de mobilizar os chefes de Estado do G-8 - os sete países mais ricos do mundo e a Rússia - e das cinco nações em desenvolvimento convidadas para o encontro de junho, em Heiligendamm (Alemanha), para darem o último passo político e concluir a negociação da Rodada Doha.
¿As conversas técnicas já chegaram ao seu limite¿, afirmou o ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim, pouco antes do encontro oficial com a representante dos Estados Unidos para o Comércio, Susan Schwab. ¿O ideal é que tudo esteja bem encaminhado até a reunião do G8+5¿, completou.
A proposta de finalizar a Rodada Doha com um encontro de líderes mundiais, no qual pudessem apresentar as decisões políticas mais delicadas no plano interno, já havia sido ensaiada no ano passado, na cúpula do G8+5. A negociação da Organização Mundial do Comércio (OMC) entrou na pauta daquela reunião ao final de uma insistente campanha de Lula, que tratou previamente do assunto com Bush, o primeiro-ministro britânico, Tony Blair, e o presidente russo, Vladimir Putin.
Na ocasião, o G8 determinou a realização de um encontro de ministros dos principais países da OMC, entre os quais o Brasil, nos dias seguintes. Mas essa iniciativa desaguou em um impasse que levou a Rodada a ser suspensa entre julho de 2006 e fevereiro deste ano. Desde que foi retomada, a negociação vive uma suspensão camuflada - todos os principais atores da OMC esperam uma oferta melhorada do outro lado para fechar o acordo, como resumiu Amorim. A rigor, a Rodada não terá condições políticas de prosseguir além de julho deste ano.
A questão-chave para a conclusão da Rodada está nas mãos dos EUA. Espera-se de Washington uma nova oferta de corte nos subsídios aos agricultores. A proposta sobre a mesa de negociação fixaria o teto a essas subvenções em US$ 22,5 bilhões ao ano - US$ 5 bilhões a mais que a média anual a ser desembolsada entre 2007 e 2012.
O G-20, grupo de economias em desenvolvimento liderado por Brasil e Índia, espera a redução desse patamar para US$ 15 bilhões. A União Européia quer vê-lo em US$ 12 bilhões.
Para se moverem, os Estados Unidos insistem na abertura de mercados agrícolas, sobretudo das economias em desenvolvimento mais populosas que se agregam, sob a liderança da Índia e da Indonésia, no G-33. Daí as insistentes pressões da Casa Branca para que o Brasil convença a Índia e seus aliados a diminuir as exigências de proteção tarifária aos segmentos da agricultura familiar e de subsistência. O governo brasileiro esquiva-se dessa intermediação por temer o rompimento do G-20.
¿O Brasil pode contribuir também para que os EUA vejam as circunstâncias que levam o G-33 a defender essa posição¿, completou Amorim.
Sem esses movimentos, a alternativa seria concluir um acordo com ambições mínimas, mas que garantisse a implementação dos acertos já fechados. Em especial, a decisão já tomada de zerar os subsídios à exportação agrícola até 2013. Mesmo essa saída depende de o Congresso americano renovar o mandato dado ao Executivo para concluir acordos comerciais sem o risco de serem emendados pelos parlamentares.