Título: Chávez quer criar 'moeda paralela' para permitir ' trocas entre pobres'
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Fonte: O Estado de São Paulo, 31/03/2007, Internacional, p. A25
O presidente venezuelano, Hugo Chávez, anunciou que criará uma 'moeda comunitária' para que 'os pobres possam adquirir produtos' mesmo sem ter bolívares - a moeda oficial venezuelana. O projeto, anunciado durante o programa Alô Presidente, lembra o famoso patacón, uma moeda paralela que foi emitida pela Província de Buenos Aires, na Argentina, depois da crise de 2001, porque o governo da região não tinha recursos suficientes em moeda oficial para pagar suas contas.
Segundo Chávez, a nova moeda circulará em territórios específicos e por um período determinado ('talvez 6 meses'). 'Funcionará como no norte do Brasil e em algumas localidades do México', disse o presidente venezuelano. 'O sistema monetário comunitário permitirá a troca de bens entre aqueles que não tem dinheiro.' Durante o programa, Chávez pediu para o seu ministro da Economia Popular, Pedro Morejón, marcar uma data para a inauguração do 'sistema de comércio alternativo'. De acordo com o líder venezuelano, sua regulamentação poderá ser aprovada por um decreto presidencial.
Preocupado com uma inflação que atingiu 17% no ano passado (a maior da América Latina), o governo venezuelano está empenhado em criar políticas assistencialistas que garantam a popularidade do presidente, mas não impliquem na emissão de mais bolívares - e sua conseqüente desvalorização.Na quinta-feira, o governo anunciou que pretende reduzir o ritmo de crescimento da economia venezuelana para 'algo em torno de 6% e 7% ao ano', contra os 10,3% do ano passado. A meta, desacreditada por analistas independentes, é chegar a uma inflação de apenas 12%.
O problema é que, como definem alguns economistas venezuelanos, 'a mão direita do governo parece não saber o que faz a esquerda'. Pouco depois de anunciar a criação da 'moeda comunitária', Chávez ordenou que os ativos do fundo que garante os depósitos bancários na Venezuela - o Fundo de Garantia e Proteção Bancária (Fogade) - fossem 'transferidos para os pobres', uma medida que, segundo analistas, ameaça as instituições bancárias autônomas e a saúde do sistema financeiro e monetário venezuelano.
'Quero que todos os bens que o Fogade possui sejam passados para o Estado', afirmou Chávez, acrescentando que o governo compensaria 'pouco a pouco' os bens expropriados. 'Esse fundo possui muitos ativos e terrenos. Vou dar tudo isso ao povo.'
O Fogade faz parte da estrutura do Ministério das Finanças, mas é uma instituição autônoma. O fundo teve uma participação importante na recapitalização dos bancos venezuelanos depois da crise do sistema bancário de 1994, que custou ao governo cerca de U$ 11 bilhões e prejudicou a economia durante vários anos. Chávez afirmou que os depósitos bancários continuarão protegidos, mas não disse como.