Título: Indústria vê expansão concentrada
Autor: Veríssimo, Renata
Fonte: O Estado de São Paulo, 12/04/2007, Economia, p. B7

O ritmo de crescimento da atividade industrial está concentrado em poucos setores, segundo dados do primeiro bimestre deste ano, divulgados ontem pela Confederação Nacional da Indústria (CNI). O economista-chefe da entidade, Flávio Castelo Branco, acredita que o comportamento global da indústria mascara a realidade enfrentada por alguns setores que perderam competitividade por causa da valorização do real em relação ao dólar.

'A manutenção do câmbio valorizado tende a reforçar a perda de participação da indústria no Produto Interno Bruto (PIB, o conjunto de riquezas produzidas pelo País)', afirmou Castelo Branco.

Ao contrário do que ocorreu com o PIB nacional, que subiu com a nova metodologia de cálculo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o crescimento da indústria caiu de 1,9% para 1,6% no ano passado.

Castelo Branco acredita ser 'muito forte' afirmar que o câmbio valorizado venha provocando 'desindustrialização' - como disse ao Estado o ex-secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda, Júlio Sérgio Gomes de Almeida -, mas avalia que a indústria está perdendo importância na geração de riquezas no Brasil.

Os indicadores industriais de fevereiro mostram um crescimento moderado da atividade industrial, mas o economista da CNI, Paulo Mol, estima que os números de março sobre as vendas da indústria podem apresentar queda, refletindo o impacto da mais recente onda de valorização cambial, que fez o real atingir o nível mais baixo desde 2001, de R$ 2,02 por dólar.

EMPREGOS

Em fevereiro, as vendas reais cresceram 0,2% em relação a janeiro, enquanto o número de horas trabalhadas, que mede o ritmo da produção, subiu 1,4%. A utilização da capacidade instalada passou de 81,3%, em janeiro, para 81,7%, em fevereiro. O nível de emprego, no entanto, mostrou estabilidade, interrompendo-se uma seqüência de 14 meses de crescimento.

Na comparação com fevereiro de 2006, os números são bem melhores. As vendas subiram 4,9%, e as horas trabalhadas na produção, 2,8%. O número de empregos aumentou 3,3% e as remunerações pagas pela indústria tiveram melhora de 6,4%.

Castelo Branco disse que a heterogeneidade do crescimento industrial já foi marcante em 2006, mas havia a expectativa de que o crescimento fosse estendido a todos os setores da indústria com a recuperação da economia no segundo semestre do ano passado. Mas, segundo ele, a intensificação da valorização do real nos últimos dias pode acentuar essa heterogeneidade em 2007.

CONCENTRAÇÃO

No primeiro bimestre, as vendas do setor subiram 4,9% em relação aos dois primeiros meses de 2006, mas 80% dessa expansão se concentrou em produtos químicos, refino de petróleo e álcool, alimentos e bebidas e máquinas e equipamentos.

O número de horas trabalhadas teve alta de 3%, também concentrada nos mesmos setores. Mas a média geral foi reduzida por causa do desempenho negativo dos setores de vestuário e têxteis.

O mesmo fenômeno se verificou no mercado de trabalho. O emprego cresceu 3,4% no primeiro bimestre. O setor de alimentos e bebidas foi responsável por 66% desse crescimento, enquanto madeira, têxteis e vestuário demitiram trabalhadores neste período.

Castelo Branco disse que os setores que têm preços internacionais menos aquecidos e enfrentam uma concorrência externa maior apresentam pior desempenho. Segundo ele, a taxa de câmbio 'magnifica' o problema da competitividade e acentua a heterogeneidade entre os setores industriais. Para ele, é preciso reduzir os custos sistêmicos da produção, além de uma queda mais acentuada dos juros.