Título: Equipe econômica fica sem formulador
Autor: Fernandes, Adriana
Fonte: O Estado de São Paulo, 16/04/2007, Economia, p. B5

Sem uma grande 'grife' entre os economistas, o papel de formulação da política econômica e das estratégias de médio e longo prazos do governo no segundo mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva ficou ainda mais diluído entre o Ministério da Fazenda e o Banco Central (BC) com o novo time formado após as mudanças anunciadas nas duas últimas semanas.

O cenário atual de estabilidade e crescimento colocou em segundo plano a necessidade de formuladores de política econômica, abrindo espaço para 'operadores' mais voltados para garantir uma sintonia-fina entre os temas macro - fiscal, inflação, câmbio e juros - e microeconômicos, como regulação, melhoria do ambiente de negócios, desoneração tributária, investimentos e infra-estrutura.

'Se o vento está soprando a favor, não precisa de um formulador. Basta não errar', avalia o senador e economista Aloizio Mercadante (PT-SP).

Nesse novo contexto de 'administração do dia-a-dia', portanto, ganham espaço, no Ministério da Fazenda, o secretário de Política Econômica, Bernard Appy, que cedeu a secretaria-executiva para o ex-ministro da Previdência, Nelson Machado, o mais novo integrante da equipe.

Considerado negociador experiente e profundo conhecedor da máquina estatal, Machado, que está de férias e ainda não assumiu o cargo, é aguardado com entusiasmo pelos técnicos da Fazenda. Com Machado, a expectativa é de uma definição mais clara das diversas áreas de atuação do ministério.

Em relação a Appy, que superou os boatos de que sairia do governo por divergências com o ministro da Fazenda, Guido Mantega, o que se afirma no governo é que ele conquistou um novo espaço e poderá se dedicar ao que mais gosta de fazer: analisar a microeconomia e discutir a proposta de reforma tributária, que o governo quer encaminhar ao Congresso no segundo semestre. O sucesso dessas medidas é condição básica para um crescimento sustentável de longo prazo.

A Secretaria de Acompanhamento Econômico (Seae) também foi reforçada com a ida Nelson Barbosa, que ganhou maior destaque na equipe econômica depois de ser o coordenador econômico da campanha de Lula para a reeleição. Ele recebeu de Mantega a orientação para ampliar o escopo de atuação da Seae, até agora focada na análise de fusões e aquisições.

No BC, a saída do diretor de Política Monetária, Rodrigo Azevedo, que tem renomada formação acadêmica, mas pouca experiência como operador, sinalizou a opção por uma administração diária de estratégias de mercado agressivas. Com isso, o presidente do BC, Henrique Meirelles, tenta garantir uma política cambial e monetária de maior eficiência. O primeiro passo já foi dado, na última sexta-feira, quando o BC anunciou mudanças na sua forma de atuação do mercado de câmbio. A escolha do 'operador' Mário Tóros para o lugar de Azevedo deixou clara essa opção.

O papel de formulação na autoridade monetária continua na Diretoria de Política Econômica, agora sob o comando de Mário Mesquita, que substituiu o polêmico Afonso Bevilaqua. Mesquita divide, no entanto, esse papel com Paulo Vieira da Cunha, diretor de Assuntos Internacionais e representante da ala considerada 'conservadora light' do BC. Com perfil discreto e raras aparições na imprensa, Vieira da Cunha é sempre ouvido por Meirelles.

'O BC não é formulador. Ele precisa ter capacidade de conduzir a política monetária que é dada pela meta de inflação', avalia o ex-ministro da Fazenda, Mailson da Nóbrega.