Título: Coréia do Norte vendeu armas com aval dos EUA
Autor: Gordon, Michael R. e Mazzetti, Mark
Fonte: O Estado de São Paulo, 09/04/2007, Internacional, p. A12
Três meses após os Estados Unidos terem pressionado a ONU a impor sanções duras contra a Coréia do Norte por causa do teste nuclear norte-coreano, funcionários da administração de George W. Bush permitiram que a Etiópia concluísse uma compra de armas secretas da Coréia do Norte, no que parece ser uma violação das restrições. A revelação é de altas autoridades americanas.
Os EUA permitiram a complementação da entrega das armas em janeiro porque a Etiópia estava no meio de uma ofensiva militar contra milícias islâmicas no interior da Somália - uma campanha que auxiliava a política americana de combater extremistas religiosos na região conhecida como Chifre da África.
Autoridades americanas revelaram que já vinham encorajando a Etiópia a se desligar de sua prolongada dependência da Coréia do Norte para abastecer suas Forças Armadas com equipamentos militares baratos da era soviética, e que as autoridades etíopes pareceram receptivas a isso. Mas o negócio das armas é um exemplo das concessões resultantes do choque de dois valores absolutos de política externa dos EUA: o compromisso com o combate ao radicalismo islâmico e seu esforço para privar o governo norte-coreano do dinheiro que ele poderia usar para prosseguir seu programa de armas nucleares.
Desde os atentados de 11 de Setembro, a Casa Branca mostrou várias vezes uma disposição de tolerar condutas indevidas de aliados que, não fosse isso, poderia criticar, como violações de direitos humanos na Ásia Central e repressões antidemocráticas em alguns países árabes. Em 2002, a Espanha interceptou um navio que transportava mísseis Scud da Coréia do Norte para o Iêmen. Na ocasião, o Iêmen estava trabalhando com os EUA para caçar membros da Al-Qaeda que operavam dentro de suas fronteiras. Após protesto do governo etíope, os EUA pediram que o cargueiro fosse libertado. O Iêmen disse, na ocasião, que aquele era o último carregamento de uma compra antiga de mísseis.
Funcionários americanos afirmam que o governo etíope usou a mesma justificativa. O valor do armamento comprado não ficou claro, mas a Etiópia adquiriu US$ 20 milhões em armas da Coréia do Norte em 2001 - padrão que, segundo funcionários, continuou. Os EUA deram milhões de dólares de ajuda externa e alguns equipamentos militares à Etiópia.
Depois de um breve debate em Washington, tomou-se a decisão de não bloquear o acordo de venda de armas e pressionar a Etiópia para não fazer compras futuras.
O momento do embarque foi extremamente oportuno. A Etiópia iniciara uma ofensiva na Somália para expulsar as forças islâmicas e instalar o governo de transição em Mogadiscio um mês antes. Os EUA estavam lhe fornecendo informações secretas detalhadas sobre a localização das forças islâmicas e posicionando navios da Marinha ao largo da costa somali para capturar combatentes que tentavam escapar por mar do campo de batalha.