Título: Leste africano é o novo eldorado da Al-Qaeda
Autor: Lapouge, Gilles
Fonte: O Estado de São Paulo, 09/04/2007, Internacional, p. A12

A Al-Qaeda, até aqui, era a Ásia (o Afeganistão, onde oficiava Osama bin Laden até os atentados de 11 de Setembro; depois o Paquistão, para onde os taleban afegãos fugiram), o Extremo Oriente, onde campeiam na Indonésia fileiras terroristas, sem esquecer, claro, de vastas partes do Oriente Médio. Hoje, é de se temer que a esse berço original da Al-Qaeda venham se juntar novas províncias no leste da África.

É esse o sentimento dos estrategistas americanos, que viram a mão da Al-Qaeda na lenta descida ao inferno da Somália, país africano anárquico e miserável situado ao sul da Etiópia e à margem do Oceano Índico.

Alguns meses atrás, Mogadiscio, a capital somali, havia sido tomada de assalto pelos soldados das Cortes Islâmicas, um movimento insurgente muçulmano. Os americanos, temendo que todo o leste da África, da Etiópia ao Quênia, soçobrasse e caísse no embornal da Al-Qaeda, não quiseram intervir diretamente para restabelecer o antigo poder em Mogadiscio. Eles haviam encarregado dessa tarefa o país vizinho, a Etiópia, aliado leal de Washington.

Assim, os guerreiros etíopes invadiram Mogadiscio em janeiro e restabeleceram uma ordem brutal em algumas horas. Nos meses seguintes, as Cortes Islâmicas reagiram e seguiram-se combates com armas pesadas. Estima-se que 120 mil habitantes de Mogadiscio fugiram da cidade desde 1° de fevereiro.

Segundo a agência Associated Press, centenas de suspeitos da Al-Qaeda foram detidos na Somália em janeiro e transferidos secretamente para três prisões etíopes, onde foram submetidos a um tratamento semelhante ao que seus irmãos mais velhos asiáticos experimentam na prisão de Guantánamo. São prisioneiros de 19 nacionalidades diferentes (entre elas americana, sueca, francesa e canadense).

Que tratamento sofrem esses prisioneiros? Ao que parece, nenhuma acusação lhes foi imputada. Eles não têm direito a um advogado. Os etíopes desmentem em bloco todas essas informações. Mas oficiais americanos as confirmam. Eles detalham que procuram entre essas pessoas alguns dos terroristas islâmicos que haviam cometido atentados sangrentos contra as embaixadas americanas no Quênia e na Tanzânia em 1998. Diplomatas de países de onde são oriundos os prisioneiros islâmicos solicitaram e obtiveram informações sobre a identidade dos prisioneiros e sua sorte. Entre esses diplomatas, os suecos, o que é normal, mas também - e curiosamente - diplomatas americanos.