Título: As estatísticas nos comoverão?
Autor: Novaes, Washington
Fonte: O Estado de São Paulo, 20/04/2007, Espaço Aberto, p. A2

Nesta semana, 82 mil recenseadores em todo o País estão iniciando uma nova contagem populacional e o censo agropecuário. Certamente haverá surpresas. Pena que quase metade da população, principalmente nas áreas metropolitanas, fique fora da contagem por 'falta de recursos orçamentários' (quais serão as outras prioridades?). Mas importante é que haverá subsídios valiosos que poderão orientar políticas públicas em todas as áreas - educação, saúde, habitação, saneamento, transportes, Previdência, emprego, agropecuária, resíduos, tudo - nas próximas décadas.

Segundo os demógrafos, o Brasil, que já tinha 187 milhões de pessoas na última contagem, vai estabilizar sua população lá pelo meio deste século, quando terá ultrapassado 250 milhões, talvez já próximo de 260 milhões. Isto é, mais 60 e tantos milhões de pessoas. Onde se localizarão elas? Com que necessidades? Já não se trata de uma 'explosão' demográfica, como ocorreu na década de 1960, quando cada mulher em idade fértil chegou a ter uma média de quase 6 filhos, ou nas décadas seguintes, ainda com números muito altos. Em 2006, a média ficou em 2,1 filhos, já muito próxima da taxa de reposição (2 filhos por casal). Mas, como há um número elevado de mulheres em idade fértil (fruto do crescimento nas décadas de 1960 a 1990), a população continuará crescendo, com mais nascimentos que mortes.

As desigualdades regionais persistirão, mesmo sob esse ângulo da fecundidade. Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) (Estado, 15/12/2006), daqui a 25 anos ela será de apenas 1,59 filho por mulher no País, mas no Amapá serão 2,75 e no Rio Grande do Sul, 1,2. Na mortalidade infantil, a taxa terá baixado de 25,88 por cem mil habitantes para 11,53, mas continuará muito mais alta em Alagoas (19,4) que no Rio Grande do Sul (7,3). A esperança de vida ao nascer terá aumentado dos atuais 72,08 anos para 78,33, mas os catarinenses viverão mais (79,76 anos) que os alagoanos (75,16) e as mulheres continuarão vivendo mais (81,9 anos) que os homens (74,92). Quase certamente haverá menos casais com filhos que hoje (50%).

Não nos faltarão razões para preocupação. Segundo a Comissão da ONU para a População e o Desenvolvimento (Estado, 18/2/2005), a região metropolitana de São Paulo chegará até 2015 a 20 milhões de pessoas. Será a quarta mais populosa, após Tóquio, México e Nova York. Mais problemas para se somarem à miríade de hoje.

Vamos ficar sabendo mais também por outros ângulos preocupantes, como a parcela da população que depende dos que trabalham ou têm renda. Hoje temos quase um dependente para duas pessoas que trabalham. E a previsão é de que esse número possa subir um pouco, com o envelhecimento de uma parcela maior da população.

Fora do Brasil, principalmente na Europa e no Japão, este é um problema sério: o envelhecimento da população, com a sobrecarga dos sistemas de Previdência. E já se prevê que em 2050, pela primeira vez, haverá mais idosos (mais de 60 anos) que crianças no mundo. Eles serão 32% da população total. Como sustentar a Previdência? Hoje, 28% da população tem menos de 15 anos e outros 15%, de 15 a 24 anos; 10% (quase 700 milhões), mais de 60 anos. Em 2050, quase 2 bilhões de pessoas terão mais de 60 anos. Hoje, a Europa tem 21% de idosos; a América do Norte, 17%; a América Latina e o Caribe, 10%; e a África, 5%. No conjunto dos países em desenvolvimento, os idosos, que hoje são 13% do total, chegarão a 34% em 2050, segundo a ONU. E esses países 'envelhecerão antes de se tornarem ricos' - se o mundo continuar como é hoje, com a atual distribuição de renda entre nações ricas e pobres.

Sejam quais forem os caminhos, no ano que vem, pela primeira vez na história humana, a população das cidades será maior que a rural. Já chegara a 3,2 bilhões em 2005 e continuou crescendo à razão de 160 mil pessoas por dia. Em 2030, serão 4,9 bilhões nas cidades, das quais 3,9 bilhões nos países em desenvolvimento (2,3 bilhões em 2005) e 1 bilhão nos países industrializados (900 milhões em 2005). Ao entrar o mundo na quarta década deste século, a expectativa média de vida nos países centrais será de 76 anos; nas nações em desenvolvimento, 65 anos; nos países mais pobres, 53 anos.

Nada espanta, se se levar em conta o quadro de hoje. Segundo o Banco Mundial (16/4), embora a pobreza se tenha reduzido de 21% entre 1990 e 2004, ainda há no mundo 985 milhões de pessoas que vivem com menos de US$ 1 por dia, ou R$ 60 por mês; e 2,6 bilhões vivem com menos de US$ 2 diários (R$ 120 por mês, menos de um terço do salário mínimo brasileiro). Cem milhões moram em favelas. Na América Latina, 8,6% das pessoas vivem em pobreza extrema; na África subsaariana, 41%. No Brasil, dizem as nossas estatísticas que pelo menos 30% da população está abaixo da linha da pobreza, apesar de algumas melhoras na distribuição de renda nos últimos anos.

Os números do censo agropecuário também serão muito úteis. Poderão ajudar a conduzir as discussões para terrenos mais seguros, seja quanto ao total de áreas ocupadas, seja quanto ao avanço da fronteira agrícola e das criações - na hora em que se acirram as discussões sobre clima, desmatamento na Amazônia e no Cerrado, localização do biodiesel e do etanol. Exatamente na hora em que é preciso ter confiança na base de dados e segurança nas decisões.

Vamos esperar os números do IBGE para ver se as estatísticas conseguem aquilo que a realidade à nossa frente não é capaz: mover-nos em direção a mudanças que não podem ser mais adiadas.