Título: 'Brasileiros vão continuar líderes'
Autor: Modé, Leandro
Fonte: O Estado de São Paulo, 24/04/2007, Economia, p. B5

Ex-presidente do Citibank no Brasil, Alcides Amaral afirma que gigantes estrangeiros do setor estão - e continuarão - de olho no País. Mesmo assim, não acredita que o sistema bancário brasileiro será dominado por instituições internacionais. 'Os bancos brasileiros têm uma posição de liderança e vão continuar tendo, pois conhecem melhor do que ninguém como reage o cliente brasileiro', disse. Ele conversou com o Estado sobre o impacto, no Brasil, de operações como a fusão entre ABN e Barclays.

A fusão entre ABN Amro e Barclays indica um movimento de consolidação bancária no exterior, notadamente na Europa. O que isso significa para o Brasil?

É uma tendência natural haver algumas consolidações, não só no setor financeiro. No Brasil, já temos um sistema bastante consolidado. Os bancos brasileiros têm posição de liderança e vão continuar tendo, pois conhecem melhor do que ninguém como reage o cliente brasileiro. Os bancos estrangeiros que têm apetite internacional continuarão buscando oportunidades. Eles estão olhando o que acontece no mundo, e o Brasil é sempre uma oportunidade. Acredita-se que este país vai crescer um dia aquilo que deve crescer, não esses míseros 3%, 3,5% que cresce atualmente. Ou seja, o potencial para o sistema financeiro é muito grande. Todos os bancos estão olhando isso. Mas nem por isso o sistema vai se desnacionalizar. Banco do Brasil, Caixa Econômica Federal, Itaú e Bradesco continuarão sempre fortes como estão hoje.

Onde estão as oportunidades no Brasil, só no varejo?

O que o sistema financeiro procura atualmente, no mundo todo, é o varejo. É onde o sistema cresce. Nas economias consolidadas, as grandes empresas vão ao mercado por conta própria. O banco é mero intermediário. O grande foco, hoje, do crescimento do sistema é o varejo. Tanto é que todos os bancos estão atrás da clientela das classes D e E. Esse público pode evoluir e passar a consumir outros produtos e serviços. Quanto mais clientes, mais ganhos com tarifas.

Nessas negociações externas, existe a possibilidade de uma operação se refletir no Brasil. Um consórcio integrado pelo Santander, por exemplo, também tentou comprar o ABN. Se essa transação tivesse se concretizado, o Santander e o Real, juntos, passariam a ser o maior banco privado do Brasil. Esse é um cenário possível?

É. O Santander, o HSBC e o Citibank são bancos com postura internacional que olham o Brasil com interesse. O Santander e o Real, na realidade, já são bancos estrangeiros. Mesmo que os dois passassem a ser, juntos, o maior banco privado do País, seria um só contra quatro grandes nacionais. A maior fatia de mercado ainda seria dos nacionais.

O Citibank foi bem agressivo no México, onde adquiriu o líder local, o Banamex. É um cenário possível no Brasil?

Na realidade, no México, o Citi se associou ao maior banco mexicano (Banamex) e manteve a marca local. A gestão do banco ficou com os mexicanos. O pessoal do Citi só ficou no conselho. Acho que essa possibilidade existe no Brasil, sim. Aliás, eu sempre defendi uma associação do Citi com algum grande banco brasileiro. Não tenho nenhuma informação de dentro, não estou mais ligado ao Citi, mas acho que o caminho para o banco seria uma associação desse estilo.

Olhando lá para frente, do ponto de vista do cliente, o sr. acredita que o setor será mais competitivo do que hoje?

A competição vai existir. Hoje, no Brasil, há uma série de problemas que impedem a queda do custo do dinheiro. O compulsório, a inadimplência alta, taxas do Banco Central... Há espaço para a taxa cair, como já tem caído em casos específicos.