Título: O paraíso astral do presidente
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Fonte: O Estado de São Paulo, 25/04/2007, Notas e Informações, p. A3

Pasme o eleitor: dos 20 partidos representados no Congresso, os 2 únicos que têm queixas ou falam mal do presidente Lula são o PT e o PFL, agora chamado DEM. Um porque, tratado ostensivamente pelo primeiro-companheiro como uma chateação, quando não uma irrelevância, tanto espaço perdeu no Executivo federal que o seu presidente, Ricardo Berzoini, precisa reclamar em público que ¿forças importantes (da legenda) não estão contempladas no primeiro escalão do governo¿. Outro porque Lula está desfazendo o histórico matrimônio tucano-pefelista, ao abrir o Planalto para uma interlocução já rotineira com as duas principais forças do PSDB hoje em dia, os governadores José Serra e Aécio Neves - que até já passaram da fase de se mostrar docemente constrangidos pela sua parte na história -, e com o próprio presidente da agremiação, senador Tasso Jereissati.

Mas nessa espécie de mingau a que parece ter se reduzido a política nacional, nem mesmo o Democratas está livre para atirar a primeira pedra no parceiro infiel. O senador Antonio Carlos Magalhães, a quem Lula chamou de hamster e ele chamou de rato, tão agradecido ficou por ter recebido a sua visita quando internado no Incor que não só subiu à tribuna para cumprimentar o roedor da antevéspera, como foi trocar efusões com ele em palácio (quando teria pedido para o anfitrião moderar a ofensiva do governador petista da Bahia, Jaques Wagner, para tomar os ¿seus prefeitos¿). ACM ao menos entrou no Planalto pela porta da frente. Em segredo entrou outro senador democrata, o velho cacique mato-grossense Jaime Campos, suspeito, por sinal, de participar de uma gangue que vendia imóveis rurais usando documentos falsos.

De todo modo, desde que Lula nomeou ministros um político, o peemedebista baiano Geddel Vieira Lima, e um intelectual público, o filósofo do direito Roberto Mangabeira Unger, que não faz muito o cobriam com os piores impropérios, já não vale a pena gastar papel e tinta com o despudor que os irmana. Diga-se apenas que, tomada isoladamente, a interação madura é melhor para o País do que a acrimônia estridente como padrão de relacionamento entre os atores políticos dos quais depende, em grau variável, o interesse nacional. Mas é sintomático que no mesmo dia, pateticamente, o PT pregue ¿firme oposição¿ aos tucanos ¿conservadores e neoliberais¿ (sic) que governam Minas, São Paulo e Rio Grande do Sul, e o nume tutelar do partido pregue o ¿relacionamento civilizado¿ entre governo e oposição. Nessa ciranda, é bom que também fique claro, ninguém nasceu ontem.

Quando Lula proclama que ¿temos de conversar com a oposição porque precisamos dar o exemplo de uma pátria civilizada, em que o presidente da República não pode ficar apenas governando com os seus¿, os não-seus sabem que ele está pedindo para pegarem leve quando começarem a funcionar, na Câmara e no Senado, a CPI do Apagão Aéreo. E foi esse o compromisso - ¿não xingar, gritar ou ameaçar o governo¿ - que extraiu semana passada do tucano Jereissati, que desde então virou a bête noire do ex-PFL. Como se houvesse clima para a oposição exumar a agressividade com que se conduziu nas CPIs dos Correios, Mensalão e Bingos (mas não a ponto de pedir o impedimento de Lula depois das confissões do seu marqueteiro Duda Mendonça). O presidente só foi mais popular do que é hoje nos primeiros meses do primeiro governo. E o feel-good factor, como dizem os americanos, produz efeitos um pouco por toda parte no País - haja ou não base objetiva para tal.

No estrito plano político, Lula se beneficia de uma conjunção única: não há candidato natural à sua sucessão; os presidenciáveis do outro lado, Serra e Aécio, sabem que seria suicídio eleitoral - e administrativo - se começassem a construir as suas candidaturas com a argamassa do antilulismo; e a oposição, ou o que resta dela, definha por ser incapaz de refazer as bandeiras que a sua própria incompetência permitiu que Lula esfarrapasse na reta final da campanha. Por fim, jogam a favor da hegemonia do presidente dois poderosos fatores estruturais: o Executivo é o centro de gravidade natural da política brasileira, e a ideologia há muito que deixou de contar no sistema partidário - com a eventual exceção do PT e do ex-PFL.