Título: Em missa sem o presidente, vigário faz crítica ao governo
Autor: Fávaro, Tatiana
Fonte: O Estado de São Paulo, 02/05/2007, Nacional, p. A5
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva não foi à Missa do Trabalhador, na Igreja Nossa Senhora da Boa Viagem, em São Bernardo do Campo, mas a homilia foi praticamente toda dedicada ao seu governo e às políticas sociais que anuncia como meta maior do segundo mandato. ¿O desemprego ainda é uma ferida no seio da sociedade, não é apenas um fenômeno cíclico, mas uma realidade permanente e estrutural¿, pregou o padre Beto Marangon, vigário-geral da Diocese de Santo André. ¿Garantir direitos é defender a vida¿ foi o tema da cerimônia celebrada na manhã de ontem.
Alegando ¿compromisso familiar¿, Lula passou o 1º de Maio em Brasília e frustrou 2 mil pessoas que tomaram a Praça da Matriz e o templo, transformado em ambiente de protestos e manifestações contra a impunidade e o descaso de políticos, inclusive do PT. Desapontou também grevistas e líderes de movimentos sociais que queriam entregar-lhe em mãos panfletos e cartas manuscritas com reivindicações e denúncias de violações contra excluídos.
O Planalto mandou uma curta mensagem, lida pelo vigário, comunicando o motivo da ausência. O gesto do presidente pôs fim a uma tradição que se prolongou por 23 anos - período em que ele jamais faltou à missa na igreja que o abrigou, e a seus companheiros metalúrgicos, do ataque da tropa de choque nos idos de 79 e 80.
O ministro Luiz Marinho, da Previdência, representou o presidente. Ele acompanhou a oração ao lado da ministra Marta Suplicy (Turismo), que foi vaiada na entrada e na saída, e do senador Eduardo Suplicy (PT-SP). ¿Vivemos numa falsa democracia¿, disse padre Beto, que por quatro vezes foi interrompido pelos aplausos dos fiéis.
O pregador advertiu os poderes públicos sobre as ¿vozes que continuam clamando por dignidade e direitos que aos poucos vemos se esvaindo das mãos daqueles que foram os protagonistas desse novo Brasil que idealizamos¿. Ele disse: ¿Os poderes públicos não devem submeter-se sem mais às leis do mercado. Devem ir além do liberalismo, que tem no livre mercado a sua lei maior.¿
O sermão apontou para a ¿impunidade daqueles que ferem o desejo de milhões que esperam por um Brasil mais igualitário e sem exclusões sociais¿. Padre Beto ainda asseverou: ¿O Brasil sonha com um sistema educacional eficiente, que não apenas promova seus alunos para atender estatísticas. Mas que forme, que eduque adequadamente nossos cidadãos, evitando assim uma massa de analfabetos com certificados de conclusão, seja no ensino fundamental ou mesmo no médio.¿
Houve referência à discussão sobre o aborto, proposta pelo ministro José Gomes Temporão. ¿Assusta-nos também quando aqueles que deveriam guardar a ordem pública sugerem plebiscito quanto à questão do aborto. Não somos os juízes de vidas indefesas¿, disse.