Título: Evo ameaça, mas diz que usará diálogo antes de tomar refinarias
Autor: Costas, Ruth
Fonte: O Estado de São Paulo, 02/05/2007, Internacional, p. A10

O governo boliviano não usou as comemorações do primeiro ano das nacionalizações do setor de gás e petróleo para anunciar a tomada das duas refinarias da Petrobrás no país, como algumas autoridades estavam ameaçando, mas manteve o tom hostil. ¿Numa primeira etapa apostaremos no diálogo, mas se isso não funcionar, não teremos medo de recuperar nossos recursos naturais e empresas¿, disse o presidente da Bolívia, Evo Morales, num discurso para milhares de simpatizantes na Praça Murilo, em La Paz, que pareceu dirigido à estatal brasileira.

No 1° de Maio do ano passado, Evo liderou a ocupação do Exército nas instalações da Petrobrás em San Alberto, de onde anunciou o decreto que deu ao Estado boliviano o controle da exploração dos campos de gás e petróleo do país e transformou as empresas estrangeiras em meras prestadoras de serviços. Hoje, o governo boliviano está decidido a obter a maioria acionária das duas refinarias da Petrobrás - a Gualberto de Villaroel, em Cochabamba, e Guillermo Elder Bell, em Santa Cruz - e participa de uma intrincada negociação com a Petrobrás para definir as condições em que isso seria feito.

Algumas autoridades bolivianas chegaram a ameaçar tomar à força as refinarias caso um acordo não fosse concluído até ontem. Ao que parece, o governo brasileiro conseguiu fazer com que os bolivianos desistissem desse prazo, mas o Estado apurou que eles já têm pronto o decreto com o qual poderiam se apropriar das instalações da estatal brasileira a qualquer momento (leia abaixo).

Pouco antes do discurso de Evo, o ministro de Hidrocarbonetos, Carlos Villegas, tomou o palanque para garantir que o governo boliviano ¿continua comprometido com a recuperação¿ das refinarias e de outras quatro empresas (a Transredes e a Companhia Logística de Hidrocarbonetos da Bolívia (CLHB), responsáveis pelo transporte e armazenagem de petróleo e gás; e a Chaco e a Andina, que atuam na exploração).

Aclamado por grupos indígenas, mineiros, agricultores e trabalhadores da Yacimientos Petrolíferos Fiscales Bolivianos (YPFB), a estatal petrolífera boliviana, Evo reconheceu que a Bolívia depende dos investimentos estrangeiros porque ¿não tem muito dinheiro para investir¿, mas advertiu: ¿Queremos sócios, não patrões¿, no que foi aplaudido pela multidão exaltada.

O presidente boliviano lembrou que a partir de hoje entrarão em vigor os 44 novos contratos assinados em outubro com as empresas estrangeiras, no marco legal estabelecido pelo decreto das nacionalizações, e não se cansou de mencionar os ganhos desse processo para o Estado e o povo bolivianos. ¿Antes, as empresas ficavam com os 82% da receita do petróleo, e os bolivianos, com apenas 18%; graças às nacionalizações agora somos nós que ficamos com 82%¿, afirmou, lembrando que, no último ano, a receita do Estado boliviano triplicou, para US$ 1,6 bilhão.

OUTROS ANÚNCIOS

O presidente também aposta em outras medidas para garantir apoio. Desde que assumiu, Evo aumentou o salário mínimo em 18,63%. Ele promete gerar 230 mil empregos até o fim do ano e, na manhã de ontem, anunciou oficialmente a criação do Banco de Desenvolvimento Produtivo, que terá um aporte de US$ 60 milhões para conceder linhas de crédito de US$ 5 a mais de US$ 10 mil para micro e pequenos empresários e associações de trabalhadores.

Segundo a oposição boliviana, Evo se inspira no presidente venezuelano Hugo Chávez para promover programas assistencialistas, que impulsionam sua popularidade, mas são pouco sustentáveis no longo prazo. Pelo menos o primeiro efeito é imediato. Outra iniciativa anunciada ontem foi a criação de uma rede de 25 rádios comunitárias voltada para as populações indígenas. O projeto, que recebe apoio de Chávez, tem como objetivo declarado ¿permitir que as populações de áreas mais afastadas possam se comunicar, convocar movimentos e fazer suas reivindicações¿. Na prática, suas motivações vão além. ¿Com essas rádios vamos poder falar a nossa verdade¿, afirmou Evo.

FRASES

Evo Morales Presidente da Bolívia

¿Se o diálogo não funcionar, não teremos medo de recuperar nossos recursos naturais e empresas¿

¿Queremos sócios, não patrões¿.